quarta-feira, 29 de junho de 2011

Balbúrdia das letras: Samba, música de negros

Balbúrdia das letras: Samba, música de negros: "Samba, Música de Negros O samba é uma música de crioulos. Quantas vezes não ouvimos, de forma fascista, racista e preconceituo..."

Samba, música de negros


Samba, Música de Negros

O samba é uma música de crioulos. Quantas vezes não ouvimos, de forma fascista, racista e preconceituosa este dito? Porém, este dito, maldito e mal-dito, quando bem-dito da forma correta, vira um lema bendito, um lema de orgulho da negritude que ergueu este país.
Num país doente de um racismo subterrâneo, não assumido, há que se responder com orgulho à afirmação racista de que o samba é uma música de Crioulos. Sim, é uma música de Crioulo! E nós, brasileiros somos todos crioulos. A última pesquisa genética feita no Brasil demonstrou que 80% da população brasileira tem genes negros, ou seja, uma imensa maioria. Os outros 20%, que não o tem, em breve, também serão “contaminados” por esta maravilhosa impureza que é a mistura de todas as etnias, capaz de gerar um povo único. É um país mestiço com vergonha da sua cor, com vergonha dos seus ritos, com vergonha das suas crenças. Um país negro que se olha no espelho e se vê como se fora a Escandinávia. Se a cor branca é minoria no país, todavia é maioria no espelho, nos (DE)formadores de opinião. Desde a tenra infância um processo de esvaziamento de nossa substância nos faz crer, ao olharmos as babás eletrônicas de nossos filhos (apresentadores de “programas infantis” todas, sem exceção, louras) que aqui é a Escandinávia. Olhos azuis ou verdes, pele clara, quase transparente, sobrenomes italianos, espanhóis ou até russos. Numa seleção parecida com o do campo nazista de Auschwitz, a máquina de fazer doidos, Ditadura da Imagem Única, executa sua “eugenia” surda contra os negros, contra os pardos, contra os nordestinos, encucando desde cedo que o belo é ser branco. O negro não se mira no espelho, ele simplesmente não existe, ou existe como exceção, como o “diferente”.
Sim, não é por inocência que a TV faz isto, não é de forma inconsciente que ela trabalha. O racismo sempre foi a ideologia de dominação e manutenção do sistema de castas aqui do Brasil, ele tem de ser perpetuado então. Agora de forma camuflada. Todos apenas devemos fingir que ele não mais existe e ponto final... O Brasil é uma verdadeira democracia racial, o melhor país do mundo para se viver... Para os imbecis e alienados, só se for. O que começa na TV e nas revistas, fica explícito nas passarelas, perpassa toda a sociedade. Os negros são a maioria nas favelas, nos presídios, nos manicômios, na população jovem assassinada. Mas são a minoria nas universidades, na Ditadura da Imagem Única da TV, nos empregos de “boa aparência”: Bancos, Shopping Centers, Administração do Sistema em Geral.
A forma de manter esta sociedade brasileira de castas, assentada de forma inexorável na cor do indivíduo é jamais discuti-la. Ignorar o racismo, como se ele efetivamente fosse apenas um ato de xingamento e não um processo de exclusão social, podar os excessos e manter tudo como está. Que se processem os fascistas exagerados que dão vazão a seus impulsos genocidas contra negros, índios, nordestinos e judeus. Que eles sejam encarcerados e mantidos sobre controle. Nisto todos concordam. Mas que se mantenha ad eterno a diferenciação social precipuamente baseada na cor. Que tudo que lembre a negritude seja visto como exótico e pitoresco e que só sejam admitidos na sociedade branca negros reduzidos e esvaziados de sua substância, de sua negritude militante, de sua contestação a estar na jaula, na nova senzala chamada favela.
Os poucos negros que são admitidos na máquina de fazer loucos da TV cumprem (ainda que inconscientemente) o papel de mostrar que tudo está bem, que não há racismo, que efetivamente o negro foi integrado na sociedade. Integrado como maioria de “avos”. Um vinte avos nesta novela, um quinze avos naquela série, um décimo naquele grupo de sucesso pop. Enfim, cumprindo uma meta de ser minoria complementar à dominação branca, quando teria de ser maioria hegemônica que comanda o processo, não por ser negro, não pela simples cor da pela, mas por, efetivamente, como trabalhadores proletários sustentarem com seus braços a força desta nação.
Candeia, há quase quarenta anos, dizia que quando o negro tomasse consciência de sua cultura, ele seria um rei. Nem precisaria ficar macaqueando os negros estado-unidenses, pois saberia da riqueza de suas raízes, mais criativas e mais combativas que as do próprio negro estado-unidense. Os negros brasileiros conseguiram manter para outras gerações suas crenças, sua ginga, suas músicas, seu batuque, suas danças, foram mais fortes e mais resistentes que os negros da América. Mas hoje olhamos para os nossos irmãos do Norte com inveja, como se tivéssemos mais a aprender com eles do que eles com nossa resistência. Eles tiveram o Black is Beautiful, lutaram na Guerra da Secessão, o belíssimo Jazz e movimentos de consciência que influenciaram irmãos por todo o mundo. E nós?
Nós tivemos os quilombos, as repúblicas negras, as guerras contra a dominação branca. A resistência nos terreiros, a insubmissão. A dança, a manutenção da religião, a música, as crenças, a disseminação da cultura para toda a sociedade branca. Nós temos o samba, tão belo quanto o jazz e muito mais rico e belo que o rap. Podem me chamar de purista, romântico ou parado no tempo, mas não me conformo quando vejo um negro brasileiro tentar protestar cantando rap, imitando o estado-unidense, tentando fazer graças a um amo que não lhe dá a mínima importância. Ao mesmo tempo em que protesta contra sua condição e pobreza, aliena-se de sua aldeia, de sua formação, vira as costas para toda a gestação de senzala, de terreiro de macumba, de batuque, de jongo, de samba, de capoeira, de resistência de séculos que nos alimentou e criou do meio da tristeza da escravidão, da miséria, da indigência, do fundo do Manguezal do Rio e de seus morros de pessoas expulsas da escravidão diretas para a indigência, de toda esta dor, conseguir criar a música e a dança mais sensual do mundo, metamorfoseada neste espetáculo lúbrico e sensual chamado samba. Negar o samba, no fundo é sentir vergonha de toda esta herança. Rap é muito bom, para os nossos camaradas negros estado-unidenses, para nós é no fundo uma mostra de submissão. Ou alguém pode imaginar um negro estado-unidense no Brooklin tentando protestar batucando e gingando como faziam nossos ancestrais ainda na África? Temos muito mais a mostrar para eles de nossa herança do que eles têm para mostrar para nós. Num país doente de um imenso complexo de inferioridade, há que se manter até uma certe empáfia ao reconhecer este imenso legado cultural que mantivemos da mãe África, como semente e fruto, renascidos geração após geração, para ensinar aos nossos irmãos em todo o mundo. E que pode ser traduzido muito bem na palavra samba.
Temos que assumir o samba como bandeira, até porque, até hoje a classe média nunca aceitou o candomblé, nunca aceitou a umbanda, nunca aceitou os ritos e as crenças negras. Um branco enegrecido com Vinícius de Moraes é logo vítima de preconceito, estigmatizado e ridicularizado. Agora, um negro embranquecido, convertido a alguma seita asséptica de influência norte-americana que passa a ver os ritos negros como festim do diabo, são prontamente aceitos na sociedade branca. Negros assimilados, negros esvaziados de sua negritude. Que não mantenham crenças negras, roupas negras, falares negros, costumes negros. Negros que vistam o costureiro da moda e que cantam melodias que rimem nada com coisa nenhuma, que abracem o presidente fascista matador de crianças árabes, estes a sociedade dominante branca aceita, pois são inócuos a seu domínio. Brancos de alma negra como João Nogueira, tão negro quanto Candeia ou Paulo da Portela, que do fundo dos terreiros traz a vetustez de gerações e gerações de senzala, estes são perigosos, porque brandem na mistura do seu sangue o “Canto das Três Raças” na voz de Clara Guerreira.
Para esta classe média asséptica, reconhecer Clara Nunes como a maior cantora do Brasil lhe seria impossível, afinal, o caminho que ela escolheu era o de cantar “folclore” (a cultura “deles” é folclore; no Brasil, o negro é visto como o outro), propagar crendices. Não era o samba esbranquiçado, esvaziado de sentido, que se podia ouvir. Mas o samba que cheirava a povo, que tinha barulho de feira, alarido de favela, gosto de comida de mãe de santo. Para este, resta sempre um lugar apendicular, diminuto, como exótico, como não cultura, como algo a ser festejado em algum dia esquecido da folhinha empoeirada, mas não como parte formadora da nossa alma brasileira.
Talvez nossa elite branca pense que com o tempo, com o esquecimento coletivo forçado através deste programa de esvaziamento da alma posto em andamento pela Ditadura da Imagem Única, possa se fazer a lobotomia em todo nosso povo e arrancar a parte negra de nosso ser. Arrancar a nossa parte mais criativa e mais sã para restar em nós uma estéril nação de bobos imitadores, que além de macaquear os estado-unidenses, pouco ou nada sabe além de contar dinheiro que teima em cada dia nos fugir.
Contra esta lobotomia fascista, há que se erguer bem alto a bandeira de nosso samba negro, samba de crioulo, samba de terreiro, samba de umbanda e candomblé, samba de raiz. Sim, o samba é coisa de Crioulo, só que nós, queiramos ou não, de pele negra ou não, somos todos no fundo bem crioulos – neste país erguido sobre o sangue e o suor do trabalho do negro. Contra o esquecimento coletivo e a imbecilização geral e coletiva, recomenda, doses cavalares do autêntico samba negro. Como fala Paulinho, Bebadachama... Chama Candeia, chama Cartola, chama Nélson Cavaquinho, chama Mestre Marçal, chama Argemiro, chama Nélson Sargento, chama Noel, chama Herivélton...
Chama de nossa alma! Todos negros sem exceção em seu espírito.

Balbúrdia das letras: Menino de Rua eu fui

Balbúrdia das letras: Menino de Rua eu fui: "Menino de Rua Era uma vez um tempo de pardais, de lampiões de gás Onde ainda havia fadas No Bonde havia um anjo para guiar, out..."

Menino de Rua eu fui


Menino de Rua

Era uma vez um tempo de pardais, de lampiões de gás
Onde ainda havia fadas
No Bonde havia um anjo para guiar, outro pra dar lugar (...)
Veio o Marquês de uma terra então perdida
E mais uma vez se fez dono da vida
Mandou plantar cem dúzias de avenidas para sepultar de vez as margaridas – Paulinho Tapajós

Fui um menino de rua, não nesta acepção feia que a palavra tomou hoje, de crianças que não têm lar para onde voltar, ou quando têm, não podem chamar aquilo de lar e optam por ficar na rua, ao relento, a sofrerem toda sorte de violência doméstica. Quando eu era criança, a crise que se abate sobre nós ainda não tinha condenado milhões de crianças a este epíteto de “criança de rua”, havia pobreza, mas não esta quantidade de meninos vagando pelas cidades. Criança de rua é uma expressão absurda, nenhuma criança é da rua, estas crianças estão na rua, a nossa indiferença e nosso descaso as jogaram lá. Não é a pobreza que as condena à rua; Cuba, um país pobre tem uma frase, escrita no aeroporto de Havana, que sempre me arrepia, HOJE MILHÕES DE CRIANÇAS DORMIRÃO NAS RUAS DO MUNDO, NENHUMA DELAS É CUBANA.
Isto explicado, insisto que criança de rua fui, numa outra acepção, de criança brincando ao vento despreocupada, com outras dezenas de crianças da vizinhança, cujos pais não sofriam os terrores e as neuroses dos dias de hoje. Não havia esta “guerra do tráfico”, esta preocupação neurótica com violência, notícias de pedofilia, de rapto de crianças. Nossos pais nos deixavam a brincar na rua, as crianças tomando contas umas das outras, com quase nenhum medo. Afinal, à época, morava na Baixada Fluminense, num bairro em que os carros contavam-se nos dedos, os perigos para uma criança eram: rasgar o pé em um caco de vidro por correr descalço, cair da laje soltando pipa (este um perigo um pouco maior), tomar uma picada de marimbondo, brigar na rua e voltar com um olho roxo (correndo o risco de apanhar de novo em casa)... Nada das desgraças do mundo moderno, nada dos pesadelos que assolam os pais hoje em dia. A vida das crianças pobres (e não miseráveis) era uma vida boa, umas acompanhando as outras nas brincadeiras de rua.
E agora me dá uma grande angústia ao perceber que, talvez, minha geração tenha sido a última geração de crianças de rua, de crianças criadas na rua, correndo ao vento, colhendo fruta, jogando bola com o pé descalço, brincando de pique, jogando pelada e chutando o chão, chutando lata, chutando tudo que fosse compatível com uma bola. Comendo goiaba, comendo amêndoas, comendo cajá, comendo jambo, comendo carambola, chupando cana, na maioria das vezes, roubado da casa do vizinho, o que dava um tempero bem mais saboroso... Uma geração que aprendeu na rua muito mais coisa que imaginassem podíamos aprender. Aprender a ser gente, a compartilhar, a repartir, a ser solidário, a vida em comunidade, a ser humano sendo outros, a chorar, a consolar e ser consolado, a brigar junto, a fugir junto, a criar laços e comunidades, a se preocupar com o outro. Aprendizado não teórico, que levo no fundo da minha alma até hoje. Por mais que os anos passem, por mais que estude, que aprenda, que me aperfeiçoe, que ganhe diplomas, nada mais sou que uma criança da Baixada Fluminense, eu saí da rua da minha infância, mas as ruas da minha infância, tudo que aprendi nelas, não saíram e não vão sair de dentro de mim até a morte. Serei sempre, graças a Deus, até o suspiro final, o menino de uma rua da Baixada Fluminense.
As crianças de rua, nos dias de hoje, foram substituídas por crianças de apartamento, videogame, jogo em rede, internet. Uma geração robotizada e individualista, presa no medo (justificável ou não) dos pais, que temem a violência, que trabalham demais porque temem perder o emprego, que temem que os filhos sejam raptados, sejam seviciados, que hiperprotegem uma geração que vai mais e mais e mais e mais e mais se individualizando, se educando pela TV, pelos chats, pelos jogos em rede, pelas lan house e cada vez menos pelo cheiro da fruta, pela carícia do vento, pelo nascer do sol, pelo nascer da lua, pela chuva no rosto, pelo futebol na chuva, pelo pique-esconde.
Medo da violência, medo do contato humano, casas cada vez mais prisões, condomínios cada vez mais fechados, próximos cada vez mais distantes, gente cada vez mais desumanizada ao nosso olhar. A geração Xuxa realmente teve infância? Quando eu era menor eu não tinha tempo para assistir TV, a rua me fascinava e prendia. Hoje, o espetáculo ao vivo das ruas, cada vez se afasta mais e mais para as pequenas cidades sem violência, que agora estão cada vez mais distantes de qualquer centro urbanizado, pois as cidades medianas copiam das cidades grandes o medo, o trânsito, a organização de classes das ruas, condomínios fechados onde bens e pessoas ficam trancados em gaiolas de luxo.
Pobre geração criada sem ruas, que sonhos sonharão? A lua em seus sonhos será virtual? Os seus desejos serão expressos no orkut? Suas fantasias expressas no youtube? Estamos criando prisões em nossas ruas e casas, vivendo vidas de condenados perpétuos e condenando nossos filhos às mesmas penas. Precisamos reconquistar a rua e a praça como lugares comuns, arrancar as grades, conversar com o pipoqueiro, retomar aquele sentido comunal, quase tribal que tínhamos em nossas vidas, e olha que esta outra vida, mais humana e fraterna, ocorria não faz muito tempo...

Balbúrdia das letras: Os que fazem a greve

Balbúrdia das letras: Os que fazem a greve: "Os Que Fazem a Greve Nestes dias de apostasia total, de descrença e indiferença, os que fazem a greve incendeiam os outros com..."

Os que fazem a greve


Os Que Fazem a Greve

Nestes dias de apostasia total, de descrença e indiferença, os que fazem a greve incendeiam os outros com a chama da esperança; os que furam a greve propagam a covardia e o conformismo.
Os que fazem a greve mostram que é necessário se indignar e que o sagrado direito de discordar e lutar por seus direitos é tão fundamental como o pão nosso de cada dia; os fura-greves se alinham com aqueles que querem transformam o ser humano numa máquina capaz apenas de trabalhar e se reproduzir.
Os que fazem a greve lutam por um futuro melhor, mais digno, onde todos possam viver e não apenas sobreviver; os fura-greves constroem um futuro de violência e caos, onde haja menos direitos e mais violência, onde o silêncio seja imperativo e obedecer, uma missão para sobreviver.
Os que fazem a greve não lutam só por aumento de salário. Os grevistas lutam por um país mais justo, mais humano, por uma humanidade mais solidária, onde o pão, a educação e a diversão sejam para todos; os que furam a greve não ligam se o pão for para poucos, e se contentam com migalhas. Justiça é uma palavra para qual não ligam e o próximo é um competidor, jamais um irmão.
Os que fazem a greve querem que o futuro de seus filhos seja límpido, com um povo bem nutrido, um país desenvolvido, com paz e moradia. Ensinam a seus filhos dignidade e honestidade, levantam alta a bandeira do amor à sua terra e ao futuro melhor; os que furam a greve não veem que legam para os seus descendentes um país dividido e violento, sem paz e igualdade. Um lugar onde só há grades, nas prisões e nas casas, e que nem o ventre das mães é seguro. Um país de poucos para o choro de muitos.
Os que fazem a greve edificam relações mais límpidas dentro do seu local de trabalho, mais transparentes, fraternas e baseadas na competência e no esforço; os que furam a greve apostam no puxa-saquismo, no cumpadrismo e na submissão. Têm mais apego a seus cargos que às suas convicções e preferem se submeter a ordem injustas que se unir e lutar por relações de trabalho claras e justas.
Os que fazem a greve estão em paz com a própria consciência e fazem a sua parte para que este país saia deste imenso atoleiro em que se encontra; os fura-greves preferem atolar no charco de indiferença a esta injustiça social, são indiferentes a toda esta imensa crise moral e espiritual que assola a nação e apenas reclamam da falência moral, como se não fossem cúmplices de tudo ao aguentar calados o desmonte do país.
Os que fazem a greve são o sal da terra!

domingo, 19 de junho de 2011

Balbúrdia das letras: Feiticeira

Balbúrdia das letras: Feiticeira: "A Feiticeira Ela chegou num dia de tempestade. Enquanto as pessoas se trancavam em casa, encanadas num medo secular, trovões sacudiam as ca..."