Página de textos literários, políticos e filosóficos do escritor Roberto Ponciano. Aqui é como se fosse minha casa, onde recebo meus amigos com café quente ou cerveja, dependendo do gosto.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Balbúrdia das letras: Natal, a festa da mercadoria
Balbúrdia das letras: Natal, a festa da mercadoria: Chegou o natal e as pessoas estão vítimas de uma espécie de embriaguez: comprar, comprar, comprar, comprar, comprar, comprar,...
Natal, a festa da mercadoria
Chegou o natal e as pessoas estão vítimas de uma espécie de embriaguez: comprar, comprar, comprar, comprar, comprar, comprar, comprar... As lojas cheias, pessoas se afogando em prestações, brinquedos e presentes eletrônicos caríssimos... É a grande celebração do Deus Manon, não o Deus Menino, o filho do homem, aquele que se fez carne para sofrer como todos nós, e que pobre, carpinteiro e operário, vagou pelo mundo pregando a igualdade e a solidariedade entre os homens. Aquele que disse, simplesmente: meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, revogam-se as disposições em contrário, esta lei entra em vigor na data de sua divulgação.
O que há de comum entre o nascimento do menino Deus, a encarnação do espírito vivo, aquele que veio distribuir o perdão entre todos os homens, que foi capaz de salvar a adúltera (ou prostituta, é sempre uma versão, a leitura) de ser apedrejada; que disse que não veio salvar os sãos, mas os pecadores, desta festa mercanditizada, com um velhinho gorducho do anúncio da Coca-cola propagando o ide e consumi-vos, pois esta é a razão de viver!
Que solidariedade é esta que se faz não através do abraço e da compreensão, mas sim através da compra, venda e troca de mercadorias?
E o que falar então para aqueles que não têm acesso à grande festa da mercadoria, colocados de lado pelo grande templo do consumo, sem dinheiro para comprar os presentes desta troca insana, e que pedem apenas um pouco de pão para que não morram de fome enquanto a humanidade celebra o desperdício?
Que me contradigam e falem que estou exagerando, mas a insanidade que vejo nesta época, com pais sacrificados para dar o “brinquedo” ou a “viagem dos sonhos”, me faz perguntar, que porra de espírito de natal é este!
Afinal, o cristo proletário, carpinteiro e filho de carpinteiro, nasceu numa manjedoura pobre, e seus presentes foram símbolos de adoração e não a festa do comprar. A pobre criança da manjedoura com certeza olha com reprovação quando a humanidade transforma sua mensagem em cifras.
Sim, porque para confraternizar basta uma mesa, um pouco de comida, solidariedade, conversas, abraços.
Na sociedade do desvínculo, onde a única pessoa que fala nas casas é a TV (este totem da solidão moderna, na qual existem milhares de meios de comunicação que não comunicam ninguém com ninguém) o natal seria, em tese, o momento em que as famílias se reúnem e celebram. Celebram mesmo? Se o ápice da festa é conferir se o presente mais caro do ano foi recebido ou não, qual o sentido desta confraternização?
Nem religioso, no sentido estrito sou, já que não sou membro de nenhuma igreja, mas, talvez, tenha entendido a mensagem do Cristo Vivo mais do que muitos religiosos. Afinal, como se pode ser solidário apenas um dia? Como se pode celebrar a cristandade em apenas um dia? E nem falo da cristandade em termos de seguir uma religião, mas de seguir sua mensagem.
Solidariedade é para todos os dias, ou somos solidários, ou não somos. Amor, carinho, fraternidade, lutar pela igualdade, ou é para todos os dias, ou é para dia nenhum. Não adianta nada rasgar as vestes, bater no próprio corpo, arranhar o corpo com as unhas dentro de uma igreja, achando assim que se está seguindo a mensagem de Jesus, isto é apenas ritualística vazia.
O que fazes para que a terra, nosso planeta, seja o paraíso prometido por Jesus no Sermão da Montanha?
A mensagem que o Revolucionário que condenou a riqueza (passará um camelo por uma agulha, mas não um rico entrará no Reino dos Céus) foi a da igualdade e a da fraternidade, a da esperança, a da amizade entre todos os povos, a do perdão.
Que fizeste no dia de hoje, semana do natal para que nosso mundo seja mais igual? Qual foi a última vez que olhastes para um pobre como um irmão, não como uma ameaça? Qual foi a última vez que te apiadaste do destino dos desgraçados? Dos deserdados, dos que tiveram o grande azar de nascerem pobres ou paupérrimos, na sociedade de Manon, Deus da Mercadoria?
Para mim é esta a verdadeira e única mensagem de Cristo. E não dá para adorar dois deuses, ou se adora Cristo, ou se adora Manon (são palavras da bíblia). Posso não ser religioso, mas captei a mensagem da pregação Cristã, que no natal não celebramos a mercadoria, mas sim a nossa humanidade comum, nossa irmandade, que está em cada homem e mulher, independente de cor, raça, credo, etnia.
A humanidade que nos faz iguais está em muçulmanos e judeus, em negros e brancos, em evangélicos e espíritas, em pobres e ricos.
Portanto, ao celebrar o natal, penses que não é através do TER, da mercadoria, do comprar e gastar que estarás seguindo a palavra do filho do homem, do Deus Vivo. Mas sim através do SER, do compreender, do entender que a mensagem do natal é a mensagem da solidariedade, de que todos somos iguais e que é missão nossa então acabar com a desigualdade, que não é criação divina, muito pelo contrário, é uma criação do homem, que assim se tornou lobo do próprio homem.
Natal para mim é compreender, mais uma vez, que a missão de cada homem aqui é transformar a terra no nosso jardim, na nossa utopia, com paz e igualdade social.
Balbúrdia das letras: 60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo
Balbúrdia das letras: 60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo: 60 Anos da Vitória Sobre o Eixo Nazi-fascista – Stalingrado, o Verdadeiro dia D “ Saber que resistes. Que enquanto dormimos,...
60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo
60 Anos da Vitória Sobre o Eixo Nazi-fascista – Stalingrado, o Verdadeiro dia D
“Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado, sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.”
Carlos Drummond de Andrade in Carta a Stalingrado
Este ano a humanidade celebra os 40 anos da vitória sobre o Eixo Nazi-fascista, numa guerra que gerou o genocídio de 50 milhões de vidas. Faz pouco tempo, vimos a comemoração da Invasão da Normandia, uma batalha que passou a ser designada como o “Dia D” da Segunda Grande Guerra e denominada de forma mentirosa pelos historiadores ocidentais como a mais importante batalha da luta contra os nazi-fascistas. Como uma mentira dita mil vezes acaba por virar uma verdade, vamos relatar e recobrar historicidade da resistência soviética ao nazismo e mostrar a batalha de Stalingrado, o verdadeiro dia D e a maior batalha da Segunda Grande Guerra Mundial.
Antes de tudo é interessante mostrar que o regime nazista de Hitler nada tinha em comum com o Socialismo Soviético. Por mais que tenha havido terríveis erros na condução do Socialismo Russo, ele era o grande inimigo a ser batido, o país dos sovietes que tinha de ser banido do mapa, o inimigo principal da Alemanha Hitleriana. Desde a ascensão de Hitler ao poder que a União Soviética denunciava aos aliados (França, Inglaterra e Alemanha) o rearmamento alemão e os planos imperialistas expansionistas germânicos. Os aliados não só fingiam não ver a escalada guerreirista alemã, como exultavam com a possibilidade de uma guerra alemã à União Soviética.
Durante a Guerra Civil Espanhola, enquanto a Luftware alemã pode impunemente rasgar os céus franceses para bombardear os soldados e as cidades republicanas, o governo francês proibiu que o Exército Vermelho passasse pela França para combater do lado dos republicanos e dificultou sobremaneira o envio de armas pela União Soviética aos resistentes da República assassinada. O resultado histórico disto todos já sabem, mas há um outro, a Alemanha nazista pode treinar táticas de guerra aérea impunemente com as bênçãos de todas as potências “liberais e democráticas”.
Diante da imobilidade e da simpatia do Ocidente frente à Alemanha Nazista nasce o pacto de não agressão Germano-soviético. O pacto jamais foi um pacto de cooperação militar. A diplomacia dos dois países jactava-se de ter tido uma vitória política sobre o outro. Pelo lado alemão, Hitler achava que com o pacto poderia operar mais livremente a guerra contra o resto da Europa, pelo lado Soviético, Stálin acreditava que entrar em guerra contra a Alemanha naquele momento seria suicídio, e que era necessário um esforço concentrado de guerra para fazer frente ao inimigo. Ambos queriam ganhar tempo para um confronto que viria mais tarde. A história provaria quem estava correto. Na URSS o dia de trabalho que já era de 8 horas por dia em 1927 (é bom lembrar que, no Brasil, esta conquista data de 1988) foi estendido para 12 horas e indústrias inteiras foram mudadas para equipamentos bélicos para o esforço de guerra.
Houve um grande erro estratégico diante do pacto. Stálin considerou que a Alemanha Nazista só teria condições de invadir a URSS em 1943 e se descuidou de sua defesa na linha de frente (embora os soviéticos nunca tenham alimentado nenhuma ilusão de que não haveria luta contra o nazismo). Assim, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em julho de 1941, em que pese todo o esforço industrial de guerra, parecia efetivamente que em meses a União Soviética deixaria de existir. De um total de 7.500 aviões, os soviéticos perderam 4 mil só na primeira semana. Considera-se que a URSS perdeu 80% da aviação e mais de 50% dos tanques nos dois primeiros meses do ataque alemão.
Até outubro os nazistas já haviam cercado Leningrado e estavam às portas de Moscou. Até novembro o saldo de destruição era inimaginável de um país poder resistir a ele: 670 mil soldados soviéticos capturados, destruídos 3.200 tanques, 15.500 aeronaves (lembrem que a URSS só tinha 7.500 no início da guerra, ou seja, haviam sido dizimadas duas vezes a força aérea russa), 57.600 veículos, 1.200 peças de artilharia e 1.200 locomotivas.
O Mito do General Inverno
Há um mito ocidental de que os russos só conseguiram derrotar os alemães por conta do “General Inverno”. É verdade que a chegada do pesado inverno atrasou a guerra alemã, mas os alemães não foram parados só pela neve, e não foram derrotados por ela. Foram derrotados inclusive no campo da tecnologia e da produção, pela capacidade da URSS de se reorganizar em meio ao cataclisma e produzir aeronaves e tanques em tempo recorde, numa velocidade inimaginável. Campos inteiros eram queimados e indústrias eram desmontadas em dias e remontadas na retaguarda. O soldado soviético, vendo que o inimigo alemão assassinava impiedosamente até os civis passou a combater até a morte. Na retaguarda alemã, uma incrível guerrilha começa a minar a força e o ânimo dos combatentes germânicos.
O frio fez estragos grandiosos no lado soviético. Sitiados em Leningrado, 1 milhão de pessoas morreram de fome e frio. Só que o exército soviético estava TECNOLOGICAMENTE MELHOR PREPARADO PARA O FRIO. Desde as vestimentas, até o tanque e o óleo. Enquanto o óleo dos aeromotores alemães congelava nos tanques e não os deixava decolar, a força aérea soviética, na mesma velocidade que perdia aviões, os fabricava, e conduzia missões consideradas impossíveis em pleno inverno.
Dos sucessos iniciais de 1941 e 1942, a Luftware alemã começou a ser batida no ar pela aviação russa em 1943, em maior número e, agora, desenvolvendo em plena guerra aviões tal ou mais velozes que os alemães, capazes de abater os antes inexpugnáveis inimigos aéreos.
No chão, as tropas panzers perderam sua superioridade. Se no início da guerra os panzers enfrentam os obsoletos B50 soviéticos, estes sendo destruídos na proporção de 2 por 1, agora enfrentavam os terríveis T34. Mais velozes, melhores blindados, melhor manobráveis no terreno difícil, com um alcance de tiro maior. Pela primeira vez durante a guerra os nazistas enfrentam um inimigo que tinha superioridade na batalha dos tanques. Isto afeta de maneira o ânimo alemão. Divisões inteiras são destruídas em batalhas de tanques descomunais onde os T34 precedem ao avanço das tropas russas.
Stalingrado também estava cercada desde julho de 1942. Um monte de ruínas com soldados soviéticos escondidos praticamente nos entulhos e nos subterrâneos da cidade, era a última cidadela contra o avanço do Exército Alemão rumo ao Petróleo e ao trigo dos campos soviéticos. 70% de toda a força militar do Eixo encontrava-se na URSS neste momento (incluindo suas tropas mais capazes). Hitler queria capturar Stalingrado e seguir rumo a leste, para se juntar aos japoneses que estavam prontos para invadir a Índia e rumo ao Sul para juntar as tropas de Rommel que combatia no oriente.
Numa resistência tenaz, a cidade resiste 200 dias, cercada, com fome, muitas vezes com dificuldades de se abastecer de munições. Três exércitos alemães, dois romenos, um húngaro e um italiano cercam Stalingrado. A situação parecia pender para a Alemanha, mas, devido à grande resistência militar, ao grande esforço do povo soviético durante a guerra para suprir o exército vermelho e a superioridade tecnológica e bélica conseguida devido a isto, a cidade não só resiste, na batalha mais sangrenta da história, mas, incrivelmente, os soviéticos contra-atacam e aí começa o fim do nazi-fascismo.
Os exércitos soviéticos conseguem com a ajuda da força aérea e dos T34 flanquear os exércitos romenos e cercam aproximadamente 300 mil soldados alemães em novembro de 1942. Os alemães ainda resistem dois meses, mas em 16/1/1943 o general Paulus entrega-se com o remanescente do seu exército. Na batalha de Stalingrado os soldados do Eixo haviam perdido cerca de 800 mil homens, o Exército Vermelho havia perdido 1 milhão e 100 mil (o exército estado-unidense, durante toda a guerra perdeu 300 mil).
Depois da derrota de Stalingrado a máquina bélica alemã foi completamente desbaratada, os soviéticos bateram as tropas alemãs até Berlim. Os aliados não invadiram a Normandia senão depois da vitória soviética em Stalingrado (embora Stálin clamasse por esta invasão fazia tempo) e a celeridade na invasão da Normandia se deveu principalmente ao medo de que URSS tomasse toda a Alemanha sozinha, já que efetivamente a Alemanha já estava militarmente irremediavelmente derrotada. Fica claro então que o verdadeiro dia D da Segunda Guerra foi a batalha de Stalingrado, que mesmo que não houvesse a invasão da Normandia os nazistas teriam sido vencidos sozinhos pelo Exército Vermelho que já havia derrotado o grosso das tropas alemães e as estava levando de volta para o Reichstag.
Embaixo, o relato de uma carta de um soldado soviético na luta sem rendição contra os nazi-fascistas:
“Aqui está a carta de Alexandr Golikov, escrita em tanque alvejado por projétil inimigo. ‘Neste instante, estamos em combate cruel, de vida ou morte. O nosso tanque foi danificado. Por todos os lados vejo soldados nazi-fascistas. O dia todos estamos rechaçando o ataque. A rua está cheia de corpos em uniformes verdes. Ficamos com vida Pavel Abramov e eu. No tanque furado igual peneira e todo escangalhado. Não temos uma gota de água sequer. O tanque estremece com os golpes do inimigo, mas, por enquanto estamos com vida. Já não temos projéteis. A munição está se esgotando. Pavel atira contra os inimigos com tiro certeiro, eu estou “conversando” com você, como sempre. A sua fotografia está em meus joelhos. Eu sei que é a última vez... Através das brechas no tanque eu vejo as árvores verdejantes, flores no jardim – de cores vivas, vivas. Vocês que sobreviveram à guerra, terão após a guerra uma vida tão linda, como essas flores e serão felizes. Por uma vida assim não temo a morte’. Carta milagrosamente encontrada num tanque onde estavam dois soviéticos mortos: após a morte do primeiro combatente, o segundo tomou seu lugar atirando. Quando a munição acabou ele tocou fogo no tanque.”
Mais de 20 milhões de soviéticos morreram na luta contra o nazi-fascismo.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Balbúrdia das letras: A inquisição vermelha
Balbúrdia das letras: A inquisição vermelha: Na década de 60 foi cunhado epíteto jocoso para os companheiros de uma esquerda debochada e não programática: “A Esquerda Fes...
A inquisição vermelha
Na década de 60 foi cunhado epíteto jocoso para os companheiros de uma esquerda debochada e não programática: “A Esquerda Festiva”, chamada por alguns de PCI, ou Partido Comunista de Ipanema. Este rótulo, como tantos outros estereótipos, acabou sendo uma pecha que pegou e até companheiros engajados em partidos políticos (como Albino Pinheiro, militante do bom e velho Partidão) acabam sendo alcunhados com o apelido.
Assim como o apelido urubu (racista e preconceituoso, que quer dizer que o torcedor do flamengo é negro e favelado, mas que foi incorporado com orgulho proletário pela torcida rubro-negra), o que foi criado de maneira pejorativa, o que antes era xingamento passou a ser título. Nossa Esquerda Festiva produziu a maior parte de nosso melhor humor, e boa parte de nossa melhor literatura, crítica literária, crítica artística e crítica política, nos últimos 40 anos. Uma esquerda festiva, inteligente e erudita, capaz de zombar das estreitezas, pernosticismos, sectarismos, preconceitos, ranzinzices, superstições e das crenças ingênuas e messiânicas de parte da esquerda tradicional.
Há que se recuperar e recontar a história de uma esquerda que entendeu que a utopia não é um dogma, uma religião, que é possível fazer socialismo com carnaval, samba e futebol. Que João Saldanha trajado de baiana à frente da banda de Ipanema não vai ser menos comunista, marxista, revolucionário por conta deste fato. A Esquerda Festiva, com verve e sensibilidade, conseguiu aproximar-se do povo; esta esquerda viu um Marx humano, frequentador das tabernas e apaixonado pelas mulheres, e não um puritano fundador de uma nova seita abstêmia e celibatária, um quaker de discurso operário.
Faço a apologia desta Esquerda Festiva, lutadora e engajada – cujos membros foram perseguidos, perderam seus empregos, foram presos, torturados, exilados, mortos – com forma de dizer que o socialismo não pode e não deve ser triste, taciturno, amargo, moralista, estéril, uma revivescência do puritanismo vitoriano, uma forma laica de moral religiosa anglo-saxônica, uma nova inquisição vermelha; com rituais novos de bom-mocismo e falso moralismo, a condenar sob uma nova cartilha do “politicamente correto” os recém-criados pecados laicos.
Quando se compara a Esquerda Festiva com esta nova Esquerda Raivosa, fundamentalista e sectária, as comparações são sempre desfavoráveis a esta. A Esquerda Raivosa do falso moralismo, do ascetismo “marxista”, a esquerda que pensa, como bem dizia Lênin, que vai mudar as coisas apenas mudando seus nomes (como se a Revolução fosse uma questão linguística, de semântica e não concreta, real). Que vê preconceito em tudo e todos e se comporta como portadora de uma nova verdade revelada, com os 10 mandamentos do profeta Marx trazidos diretos do Monte Sinai. Como nas seitas pentecostais, os nomes malditos são os populares, os que não devem ser ditos. Ficam ruborizados se alguém se utiliza da palavra puta. Aí eles gritam de forma raivosa, machismo! Preconceito! Mas o que é puta, o que é quenga, senão as formas populares de dizer prostituta, garota de programa? Assim como bunda é o nome africano e gostoso das pudicas nádegas (à forma popular é sempre a mal dita, à linguagem proletária eles preferem a linguagem polida, culta, de elite branca da USP e da PUC). Qual a diferença afinal de se dizer um ou outro? Vai mudar algo na sociedade se em lugar de uma palavra se usar outra? Se hoje uma mulher é condenada porque é uma puta, o que vai mudar se em lugar de ser chamada de puta ela for chamada de garota de programa? A condenação social vai ser reduzida por conta disto? Ou simplesmente vamos jogar a sujeira por debaixo do tapete, discutindo filigranas, quando deveríamos efetivamente discutir as maneiras de acabarmos com a exploração sexual das mulheres e os preconceitos subjacentes a isto? Gabriela Leite, umas das maiores militantes dos direitos das prostitutas (a quem tive o prazer de entrevistar) diz que o nome que mais a agrada ser chamada é o de puta. E que as prostitutas têm de enfrentar o estigma, agarrar o touro à unha, e o sonho dela é o dia em que a palavra puta não carregue mais nenhum sentido pejorativo, para ela o estigma não está na palavra, mas na sociedade, uma palavra não vai mudar nada (só varrer o preconceito através do “politicamente correto”).
Já a esquerda raivosa varre a sujeira para debaixo do tapete. Puta, quenga, meretriz são nomes “feios”. Então troquemo-nos! Prostituta! Não! Ainda é a prostituta uma puta, no final das contas. Ora usemos garota de programa... Bem, como o estigma não está no nome, mas na condição social, logo, logo garota de programa vai ter o mesmo valor sintático de... Puta! Então troquemos garota de programa por algum eufemismo que mais parece uma tese de mestrado: mulher advinda das camadas menos favorecidas da população e que, malogrados outros meios de garantir a sua subsistência de maneira produtiva teve de vender o que há de mais íntimo, seu corpo, para auferir meio de sustentar a si mesma e a sua família. Tradução: prostituta, garota de programa, quenga, puta, meretriz.
A Esquerda Raivosa, puritana e eufemista pensa mudar as coisas mudando nomes. Pensa combater o racismo no Brasil simplesmente fixando um termo como criminoso. Fala de preconceito e racismo, mas não conhece um ponto de macumba, um terreiro de candomblé, não sabe sambar, desconhece Paulo da Portela e Candeia, mas finge defender os interesses dos negros. No fundo, seu vocabulário e sua cultura são a do dominador branco, o da colônia. Escrevem uma petição contra o racismo de dia e à noite vão curtir um show de rock num bar de elite da cidade, nunca foram e não conhecem os rumos das Escolas de Samba da periferia, onde a cultura negra é celebrada em música e dança. Já a Esquerda Festiva celebrou o samba, subiu os morros, resgatou Cartola, resgatou Zé Kéti, resgatou Candeia, tingiu de negro os acordes brancos da bossa-nova, fez o que realmente interessa para combater o racismo no Brasil, valorizar nossa raiz negra e seu legado na cultura brasileira atual.
Isto não quer dizer que defendo que não haja racismo e machismo no Brasil e de que suas manifestações não devam ser combatidas de forma dura, com cadeia inclusive para as manifestações ostensivas de preconceito. O Brasil é um país racista, machista em sua cultura e em sua organização social (as mulheres e os negros fazem parte da base da pirâmide, são os mais pobres, os mais explorados). Mas não se combate isto se combatendo simplesmente nomes, combate-se isto mudando a forma de ver e pensar das gerações, e isto está ligado à reprodução de uma nova cultura que leve em conta a maravilhosa e grandiosa influência negra na nossa formação e que resgate o papel de igualdade da mulher na sociedade (antítese, por exemplo, do que se prega no funk hoje em dia, no qual a mulher é depreciada como um pedaço de carne no açougue, uma cadela, ou algo pior).
A questão do machismo tem de ser enfrentada de frente, sem eufemismos. Ela é, acima de tudo, a questão da supremacia do macho na sociedade, e isto vai muito além da questão de semântica, só pode ser mudada com uma nova correlação nos papéis. Precisamos de muitas Naras Leão e muitas Leilas Diniz para rompermos com as barreiras que ainda colocam as mulheres como encosto de cadeira no falso elogio “atrás de todo grande homem existe uma grande mulher”. Questões fundamentais como o retorno do conservadorismo, da revalorização do casamento tradicional, da virgindade, da condenação da liberação sexual das mulheres são pouco ou nada valorizadas enquanto ficamos discutindo a criação de vocábulos que contemplem tanto o gênero masculino quanto o feminino (e que não mudam em nada a compreensão e a visão da sociedade).
A Esquerda Raivosa e puritana cala-se quando se quer discutir a questão do orgasmo feminino, por exemplo. Consideram que esta questão não é de bom tom, quando, na verdade, esta é toda a questão. Desde o momento que os homens escravizaram as mulheres, no início do patriarcado, as mulheres tiveram sacrificado seu prazer em nome da “família” e dos “filhos”. Durante milênios o assunto do gozo feminino foi um tabu (ainda o é na nossa sociedade, na qual as heroínas de novela e romance sacrificam seu prazer em pró da família ou são sacrificadas no fim, como Ana Karenina), e continua como proibido em várias culturas, nas quais as mulheres se casam virgens e sem conhecerem seus maridos. Na verdade, a Esquerda Raivosa não consegue ver o quanto há de machismo em sua atitude de não discutir este assunto, o da emancipação sexual da mulher e o do direito de gozar em plenitude do seu próprio corpo. No fundo, reproduzem a moral conservadora dominante, baseada na religião, aplicável teoricamente a todos os indivíduos, cuja perfeição é a monogamia. Atacam a prostituição somente em um dos seus dois pilares, o econômico, deixando o outro lado do pilar, a moras sexual conservadora e compulsiva. Na verdade reproduzem esta de maneira automática, até porque rechaçam Freud, Reich e todos os pensadores progressistas que lançaram luzes sob o comportamento sexual do ser humano.
A Esquerda Raivosa não vê o quanto há de machismo ao não querer falar de sexo com as mulheres, como se a questão sexual fosse de interesse restrito aos homens. A prostituição é a válvula de escape de uma sociedade que vive em permanente tensão entre o desejo e a repressão dele, entre uma propaganda hedonista e sexista do gozo, e uma moral sexual repressora familiar que sacrifica o orgasmo. Paradigma de comportamento que todos pregam e que quase ninguém cumpre (pelo menos sem o sacrifício de sua saúde física e mental). O acesso igualitário ao orgasmo entre homens e mulheres, a propaganda do direito à plena satisfação sexual, devia ser uma das bandeiras primordiais do movimento feminista. Todavia, este é um assunto incômodo, que vai de encontro à moral reinante e que, portanto, é deixado de lado pela maioria dos movimentos feministas, que chegam a falar ao direito da mulher ser dona do seu corpo e, portanto, ter direito ao aborto; mas pouco falam de que o direito ao pleno uso deste corpo significa o direito a gozar sem ser vítima de estigmas, sem ser ridicularizada, sem ser condenada, porque, afinal, uma vida sexual plena é, desde o fundamento da civilização um direito apenas do homem. O que a sociedade não consegue enxergar é que não é possível uma sociedade livre quando apenas a metade de seus membros é livre. Não é possível homens livres e plenos sexualmente, sem mulheres aptas a serem suas parceiras, que também sejam livres e plenas; posto que não são tolhidas por uma moral vitoriana atrasada, que lhes faz ser pouco mais do que uma fábrica de bebês.
Para terminar, na questão dos negros, já tocada superficialmente lá em cima, a posição da esquerda raivosa é ainda pior. Resumem a luta do negro à questão da luta contra a discriminação e pela igualdade social. Isto é importante, claro que é. Mas eu acuso: Isto não basta! Ainda que hoje fizéssemos uma revolução socialista e distribuíssemos os bens igualmente entre brancos e negros e que construíssemos leis violentas contra a discriminação, ela continuaria vigorando, porque sua raiz não foi cortada. A raiz da discriminação é a valorização da cultura do colonizador branco e a desvalorização da cultura negra. Uma revolução socialista que não compreenda isto vai continuar a reproduzir o eurocentrismo, reproduziria em uma sociedade que se pretendesse nova a velha cultura racista europeia em toda sua extensão. A Esquerda Raivosa, como eu já disse, não frequenta terreiros, não frequenta pagodes, quadra das escolas de samba, festas populares. Candeia, para ela, é apenas o instrumento que alumia. Mas ainda assim, pretende ser a porta-voz dos explorados e oprimidos, explorados e oprimidos que ela não conhece, porque não segue a lição que deu Ho Chi Min, viver com eles, sofrer com eles, comer com eles.
E, ai de mim que levantei estas questões, estou apenas esperando que reação violenta, que altercação, a que tribunal de inquisição serei levado, já que a reação comum da Esquerda Raivosa é a de condenação, de xingamento, de execração pública.
A inquisição, nos nossos dias, ganhou forma laica e de “esquerda”.
Tem razão a Esquerda Festiva quando dizia que esta é a esquerda que a direita gosta. O discurso é de esquerda, a moral e a prática são de direita.
Incapazes de compreender o povo, de por isto inventar o novo, estão condenados à imitação. E já dizia Simón Rodríguez, o grande idealizador da liberdade dos povos da América, ou inventamos ou erramos.
A Esquerda Raivosa erra, construindo suas hipóteses sem conhecer o povo e a cultura brasileira.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Balbúrdia das letras: Saudades de Sérgio Porto
Balbúrdia das letras: Saudades de Sérgio Porto: Alto, forte, bonito, inteligente, bem falante, bom copo sem beber muito. Profundo conhecedor da música popular brasileira. Am...
Assinar:
Comentários (Atom)