De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo em 5 de maio de 2011.
Muita gente não entende como o Flamengo, que ficou 17 anos sem ganhar um título brasileiro, saiu de 40% da torcida carioca para 55% e fidelizou 35 milhões de torcedores no Brasil.
Bem, para explicar isto, há que começar de um primeiro fato. O Brasil é um país continente e o Rio de Janeiro é a capital cultural do Brasil, até hoje (e falo isto sem nenhuma sombra de bairrismo). Todos os grandes músicos brasileiros, incluindo os paulistas, para fazer efetivamente sucesso nacional tiveram que fazer carreira no Rio. Caetano, Gil, Dorival Caimmy, Ary Barroso, João Gilberto, Elis Regina. Não importa a naturalidade, tiveram que passar no duro teste do Rio de Janeiro.
Então, ao contrário dos comentaristas babacas da televisão que dizem que os campeonatos estaduais tem que acabar, porque a Espanha, a França e a Inglaterra não tem campeonatos estaduais, lembro sempre quantas Espanhas podem caber no Brasil.
Não dá para fazer campeonato regional na Espanha e não dá para resumir o futebol brasileiro a 20 clubes. Privilegiar só o brasileiro é levar á extinção o América, a Ponte Preta, o CSA, o Guarani, o Moto Clube, alguns destes clubes com milhões de torcedores.
Se o eixo Rio-São Paulo sobrevive só com a série A do brasileiro, e mesmo assim, só os clubes grandes, o resto do Brasil vai ter clubes fechando as portas.
Assim, o campeonato estadual tem sempre um grande gosto de ser conquistado e permanecerá eternamente, pela dimensão continental do nosso país, mesmo que esvaziado se comparado ao que foi há 20 anos. Mas, extinto, é impossível. E esta rivalidade estadual, há muito tempo, transbordou as fronteiras do estado Fluminense.
Tudo graças ao Rio Capital da República e a tronitoante voz de Orlando Silva, Francisco Alves, as cantoríssimas do rádio, Isaura Garcia, Dalva de Oliveira, Marlene e todos os grandes crooners e cantoras da rádio Nacional, que levaram não só a música carioca Brasil à fora, mas também a paixão aos clubes do Rio de Janeiro.
Assim, os times do Rio de Janeiro levaram sua rivalidade regional ao Espírito Santo, à Santa Catarina, a todo o interior do nordeste e mesmo muitas capitais destes estados, à toda região norte e Centro Oeste.
Corta, fim da era do Rádio, porque então só o Flamengo se tornou o grande time regional?
A explicação é simples, AZ-DZ. As eras flamenguistícas medem-se por antes de Zico, depois de Zico. A popularidade no Rio de Janeiro do Flamengo, deveu-se, desde o princípio, ao fato de o Flamengo ser o Clube popular por excelência. Contraditando algumas teses, todos sabemos que o Fluminense sempre foi o clube da elite; o Botafogo, mesmo com o Garrincha, nunca conseguiu ser um clube popular, por último, o Vasco sempre foi visto com o clube do Colonizador.
Tudo bem, o Vasco e o Bangu foram os primeiros times no Rio de Janeiro (no Brasil não há comprovação de que foram eles) a admitir negros NO ELENCO.
E porque coloco NO ELENCO em maiúsculas. Porque admitir pé-de-obra negro num clube não é democratizá-lo. O futebol era um esporte que começou como sendo de elite e logo se popularizou. O Vasco era e é um clube aristocrático, num bairro que era da realeza e da corte, na época, São Cristóvão.
Os jogadores do Vasco na década de 20 eram negros, não os sócios. E nisto há uma clara divisão de classe, burguesia proletariado, agora proletários da bola.
Todos os clubes (talvez com exceção do Bangu, que era um clube da Fábrica Bangu) eram de elite, então, os jogadores sócios logicamente eram brancos.
No Vasco a dicotomia se manteve, sócios brancos, jogadores pagos negros.
Não houve uma democratização interna do clube que até hoje não tem voto democrático e elege um conselho de notáveis que junto com um conselho não-eleito de beneméritos que elege seu presidente. Qualquer comparação com a organização das Vilas impostas por Portugal e sua eleição só de homens de bem (ou homens de bens), não é mera coincidência.
Por esta razão (e não por racismo) a cidade toda torceu pelo Flamengo num Flamengo x Vasco na década de 20, quando o Flamengo representava então o Brasil diante de Portugal. Daí em diante, a paixão pelo clube só cresceu.
Na era Zico, uma era de televisão, o clube mais popular do Rio e do Brasil se tornou o único clube verdadeiramente nacional. E não venham falar de bairrismo. Todo país tem um clube nacional. Na Itália é o Juventus, na Argentina, o Boca, na Espanha, o Real, na Inglaterra, o Manchester. Um clube, que por alguma razão ganha uma identificação com seu povo e se torna símbolo que transcende suas fronteiras. O Flamengo que já tinha plantado raízes na era de ouro do rádio, vai se consolidar na época da consolidação da televisão.
Além dos vários títulos regionais, ninguém jogou futebol mais bonito, ninguém tratou melhor a bola nas décadas de 70 e 80 do que o Flamengo, no Brasil e seu esquadrão se comparou nestas décadas a poucos times no mundo, talvez o Ajax que inspirou a Holanda de 74. Um clube vira um mito via Zico e consolida-se no Brasil, levando a rivalidade carioca além das suas fronteiras.
Sim, a rivalidade carioca, porque, quem vira Flamenguista, seja no Oiapoque ou no Chuí, vibra com todos os títulos, inclusive o carioca.
Encerrando o segundo capítulo.
Terceiro round, como pode um time que ficou 17 anos sem título nacional conseguir aumentar sua supremacia em torcida?
Explicação fácil, o Flamengo não parou de ganhar títulos e ninguém ganhou tantos títulos como o Flamengo num período tão pequeno. Nem mesmo o São Paulo. Talvez o São Paulo tenha títulos mais expressivos, mas não na mesma profusão. O São Paulo fracassou na maioria dos campeonatos regionais.
Time que fracassa nos títulos regionais não consegue consolidar hegemonia no seu próprio estado. E quando um time não consolida hegemonia no seu próprio estado, mesmo que aumente sua torcida fora do Estado, não consegue ameaçar a hegemonia dos outros. O Corinthians foi arquirrival do São Paulo regionalmente e conseguiu até um título fake mundial. Isto barrou as pretensões do São Paulo de alcançar o Flamengo, mas o sucesso do Sampa também diminui o crescimento do Corinthians, já no Rio e arredores.
O Flamengo, time de berço de cariocas, capixabas, cearenses, baianos fora da capital, potiguares, piauíenses, goianos, paraenses, amazonenses, fez a limpa
Vejamos uma cronologia desde o fim da década de 70.
78-79 - Tri Campeonato Carioca e recorde brasileiro de invencibilidade
80 - Campeão Brasileiro
81 - Carioca, Libertadores e Mundial. Pentacampeão da Taça Guanabara
82-82 - Tri Campeão Brasileiro
86 - Carioca
87 - Tetra-campeão Brasileiro
90 - Copa do Brasil
91 - Carioca
92 - Penta CampeãoBrasileiro
96 - Carioca invicto
99 - Carioca e Mercosul
200-2001 - Tricampeonato Carioca
2001 - Campeão dos Campeões
2004 - Carioca
2006 - Bi Campeão da Copa do Brasil
2006-2009 - Penta Tri carioca
2009 - Hexa Campeão Brasileiro
2011 - Campeão Carioca
Assim o Flamengo passa de 40% da população fluminense para 55% da população fluminense, isto num estado com 4 times grandes! O clube é um fenômeno que contrabalança o fator família (o mais importante na escolha do clube de coração) e que faz com que muitos pais não consigam fazer com que seus filhos torçam por outra equipe.
Como o Espírito Santo basicamente torce para times cariocas, o fenômeno é muito parecido, nas regiões norte e nordeste com predominância carioca, o resultado é ainda maior, simplesmente as outras equipes fluminenses praticamente desapareceram como times nacionais e o Flamengo é a segunda maior torcida do Ceará, a terceira maior da Bahia, a maior do Piauí e uma das maiores em todos os outros estados do nordeste, com exceção da Grande Recife.
Por isto somos uma nação.
De norte a sul, uma mesma religião, Flamengo
Página de textos literários, políticos e filosóficos do escritor Roberto Ponciano. Aqui é como se fosse minha casa, onde recebo meus amigos com café quente ou cerveja, dependendo do gosto.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Balbúrdia das letras: Sai do Armário, Sossô
Balbúrdia das letras: Sai do Armário, Sossô: "Texto do Fulgêncio Seja mais feliz, Sossô, assuma seu lado gay Meu primo, gay assumido e feliz, Florêncio Pedra Lilás, me escreveu uma al..."
Sai do Armário, Sossô
Texto do Fulgêncio
Seja mais feliz, Sossô, assuma seu lado gay
Meu primo, gay assumido e feliz, Florêncio Pedra Lilás, me escreveu uma alegre carta sobre a polêmica que envolve o Bolsonaro. Além de ser um gay assumido e feliz, Florêncio é terapeuta reich-freudiano, e quer que toda a humanidade libere suas energias reprimidas. No caso de Bolsonaro, Fulgêncio defende o libera-geral, veja a carta:
"Querido Sossô, fiquei muito triste com suas atitudes francamente fascitóides. Francamente, Sossô, porque tanto ódio contra nós, Gays? Freud já explicava que certas pulsões que temos escondem nossos medos, no caso da homofobia, é famoso e conhecido que é um horror a assumir seu lado gay. Sossô, cá entre nós, libera geral! Sai do armário Sossô! Fiquei arrepiadíssimo ao ver sua barriga depilada no programa CQC. Diga para mim, toda aquela camaradagem, aquele abraço coletivo nas amigas de acampamento, tava rolando um clima, não?
E que história cafona é esta de ser contra esta promiscuidade de transar com negras? Você não foi criado no mesmo "ambiente" que a Preta Gil? Que pena, Sossô! Deve ser realmente muito triste conviver na infância com Caetano Veloso, Capinam, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, Milton Nascimento, Tom Jobim... Péssimas, péssimas companhias, não?
Sai deste armário, Sossô, queima este exemplar de Mi Kampf e saia cantarolando It's raining men nas nossa divertidas discotecas gays. Tanto preconceito e ódio contra os gays, Sossô, só pode ser por uma paixão não correspondida por um Sargento Negro que o trocou por alguém de mais baixa patente.
Depois de tanta bobagem, nunca mais vou te chamar de Bolsonaro, agora só vou te chamar pelo seu apelido mais íntimo das baladas não confessáveis, Sossô!"
Bem, eu continuo com muito ódio de toda a babaquice que o Bolsonaro fez, mas confesso que a alegria de meu primo gay me fez rir e meditar um pouco. Se boa parte dos idiotas homofóbicos se liberassem e se assumissem, garanto, a humanidade seria menos violenta e muito mais alegre, colorida e feliz!
Seja mais feliz, Sossô, assuma seu lado gay
Meu primo, gay assumido e feliz, Florêncio Pedra Lilás, me escreveu uma alegre carta sobre a polêmica que envolve o Bolsonaro. Além de ser um gay assumido e feliz, Florêncio é terapeuta reich-freudiano, e quer que toda a humanidade libere suas energias reprimidas. No caso de Bolsonaro, Fulgêncio defende o libera-geral, veja a carta:
"Querido Sossô, fiquei muito triste com suas atitudes francamente fascitóides. Francamente, Sossô, porque tanto ódio contra nós, Gays? Freud já explicava que certas pulsões que temos escondem nossos medos, no caso da homofobia, é famoso e conhecido que é um horror a assumir seu lado gay. Sossô, cá entre nós, libera geral! Sai do armário Sossô! Fiquei arrepiadíssimo ao ver sua barriga depilada no programa CQC. Diga para mim, toda aquela camaradagem, aquele abraço coletivo nas amigas de acampamento, tava rolando um clima, não?
E que história cafona é esta de ser contra esta promiscuidade de transar com negras? Você não foi criado no mesmo "ambiente" que a Preta Gil? Que pena, Sossô! Deve ser realmente muito triste conviver na infância com Caetano Veloso, Capinam, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, Milton Nascimento, Tom Jobim... Péssimas, péssimas companhias, não?
Sai deste armário, Sossô, queima este exemplar de Mi Kampf e saia cantarolando It's raining men nas nossa divertidas discotecas gays. Tanto preconceito e ódio contra os gays, Sossô, só pode ser por uma paixão não correspondida por um Sargento Negro que o trocou por alguém de mais baixa patente.
Depois de tanta bobagem, nunca mais vou te chamar de Bolsonaro, agora só vou te chamar pelo seu apelido mais íntimo das baladas não confessáveis, Sossô!"
Bem, eu continuo com muito ódio de toda a babaquice que o Bolsonaro fez, mas confesso que a alegria de meu primo gay me fez rir e meditar um pouco. Se boa parte dos idiotas homofóbicos se liberassem e se assumissem, garanto, a humanidade seria menos violenta e muito mais alegre, colorida e feliz!
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Balbúrdia das letras: O porquê de lutarmos
Balbúrdia das letras: O porquê de lutarmos: "p { margin-bottom: 0.21cm; } O porquê de lutarmos *Roberto Ponciano Companheiros e companheiras, esses últimos dias foram fantásticos pa..."
O porquê de lutarmos
O porquê de lutarmos
*Roberto Ponciano
Companheiros e companheiras, esses últimos dias foram fantásticos para mim. Estive, como um dos representantes da Escola 7 de Outubro em Minas Gerais, da qual a CUT-RJ faz parte, acompanhado sindicalistas da ISCOS e CISL Imola-Itália, que é uma das apoiadoras da escola, e financiadora de sua construção. Mas não pensem que vou a falar de uma troca de experiências internacionais. Os sindicalistas da Itália não são os protagonistas da história que vou contar, mas sim os catadores e principalmente as catadoras de rua que representam 68% da força de trabalho da reciclagem de lixo MG.
A pedido da escola fiquei com os sindicalistas italianos cinco em Belo Horizonte, e o “turismo” que nós fizemos foi visitar sete unidades de reciclagem, galpões, situados na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde o material reciclável é triado e preparado para a venda. Confesso que tenho andado um pouco desanimado com a luta sindical, ou melhor, com falta de perspectiva global, já que nunca deixei de lutar e participar. A luta sindical por vezes é extremamente corporativa, e nos faz esquecer efetivamente o porquê lutamos.
Visitar aqueles galpões me fez relembrar isto. Uma coisa é lutar para aumentar o salário da minha categoria de classe média, um objetivo realmente digno, importante, mas que não vai mudar o mundo e ainda escutar críticas ferozes contra o governo num todo, por conta de não termos conseguido o nosso aumento, outra coisa é lutar para mudar as condições de vida de pessoas que não faz muito tempo estavam relegadas à absoluta miséria. Na luta sindical muitas vezes toda a visão global de país então desce a um míope juízo de valor de se o governo deu ou não deu aumento salarial para nossa categoria.
Embora ache tático e importante esta luta e faça parte da análise do meu juízo de valor o quanto o governo vai dar para os servidores públicos, isto não determina minha análise se o Governo Lula ou Dilma é bom ou ruim. O fato é que os projetos sociais, apoiados neste e pelo atual governo têm mudado a vida de milhões de brasileiros. Não só os projetos. O governo não tem que fazer tudo ou ser paternalista, ele faz realmente a parte dele, nunca dantes na história deste país houve tal atenção à questão social.
Do outro lado o próprio movimento social tem que buscar sua dignidade (e pensar ações também em outras formas de relação de trabalho), como o fazem as catadoras e catadores de BH da Região Metropolitana. Me oxigenou a militância conversar com catadores que antes da transformação da vida deles, viviam desempregados ou faziam catação nos lixões, em condições extremas. Eles eram extremamente discriminados, eram invisíveis à sociedade. No seminário tinha até uma ex-catadora que hoje é universitária na Universidade Federal de Viçosa, uma das representantes da política de cotas do Governo Lula.
Raposos, um dos municípios onde há uma associação filiada a REDESOL MG, a qual visitamos, é um município destruído pela mineração. A Anglo-Gold, empresa inglesa, depois de extrair todo o ouro deixou só os cacos na cidade, é dona de toda a região. Após a desativação da atividade mineradora a cidade ficou sem empregos. A pouca mão de obra empregada ou é num pequeno comércio, ou os moradores buscam as cidades vizinhas para trabalhar para o governo (em órgãos públicos), na Fiat, ou na Vale. Hoje, a empresa financia projetos de desenvolvimento local para a cidade e região. A cidade só não está pior, também, por conta do bolsa família.
Antes, segundo relatos dos próprios moradores, havia muitas crianças fora da escola, mas como o benefício, que parece pequeno, é maior do que catar lixo nos lixões, trabalhar para carvoarias, os próprios pais fazem de tudo para deixar as crianças na escola. Receber R$ 20, R$ 200, pode parecer muito pouco para nós da classe média, mas para gente (como alguns dos trabalhadores dos empreendimentos, conceito que reúne cooperativa e associação cooperativa de lixo materiais recicláveis) é um banquete, uma vez que há meses em que não chegam a ganhar R$300 devido a diminuição do valor de venda do material.
Só no mês de dezembro é que conseguiram pagar um salário mínimo de R$ 510. O esforço da cooperativa de cada empreendimento é que todos os meses se chegue minimamente a este valor. Visitamos experiências das mais variadas, com diferentes graus de organização e estrutura. As realidades não são iguais. Há catadores individuais que trabalham de forma precária, mas chegam a tirar por mês R$1.200. Essa é uma das dificuldades para organizar a categoria em empreendimentos.
Só conversando com eles, se tem ideia da importância destes programas sociais (governamentais como um todo) para uma vida digna desses desses trabalhadores que diminuem os impactos e consequências ambientais da nossa sociedade de consumo. Durante uma semana, tomei um banho de realidade e contra a invisibilidade que está tão perto da gente e que a gente ignora, completamente. O mais bonito foi ver aquelas mulheres, principalmente, e aqueles homens, se apoderarem da sua dignidade. Se antes catavam lixo e ganhavam menos de R$ 100 por mês, hoje a maioria dos empreendimentos conseguem garantir ao menos um salário mínimo, e já há cooperativas gerando renda de R$ 900 por mês.
O que antes era subemprego virou profissão regulamentada no governo Lula, e com o trabalho de formação ideológica de centrais de empreendimentos, como a REDESOL-MG, das cooperativas (existem associações também), que explicam para estas trabalhadoras e trabalhadores a importância deles para a sociedade e a vivência destas pessoas dentro destes espaços, o efeito na recuperação da autoestima e da dignidade é fantástico, (há um resgate e exercício da cidadania). De segunda a quinta eu estive no meio de pessoas trabalhando com verdadeiras montanhas de materiais recicláveis para serem triados, na sexta eu estive no seminário. E como é espantosa a transformação daquelas mulheres e homens. Ao vê-los trabalhando com seus macacões de catadores, suas blusas e luvas, não se pode imaginar completamente como viraram protagonistas das suas histórias. Não mais marginais, não mais aceitam serem marginalizados como eram antes nas ruas. Agora vivem em casas, agora pagam aluguel ou conseguiram uma moradia do “Minha Casa, Minha Vida”.
No seminário, mulheres vaidosas, lindas, com unhas pintadas, bem arrumadas, com seus vestidos de festa, tomaram o microfone e se apoderaram de discursos altamente inflamados e não-alienados. Fiquei com uma ponta de inveja. Nós da classe média, nas nossas assembleias sindicais não temos um décimo da consciência de classe destas pessoas. Elas valorizam seu trabalho, sabem que estão salvando o planeta, sabem da importância delas na luta por um país e um mundo melhor. Não é uma discussão sindical apenas de índice de aumento salarial, antes, é uma discussão global da importância do seu trabalho, da sua vida e do seu papel na sociedade.
É sempre bom um banho de realidade para descobrir ou redescobrir o porquê lutamos. Se não perdemos de foco, o horizonte de nossa luta, a perspectiva de uma sociedade melhor passaremos a pensar que efetivamente o objetivo da luta sindical e da luta dos movimento sociais em geral é apenas por aumentos corporativos, sem pensar na sociedade como um todo e no futuro de um projeto de Nação que incorpore estas e outras pessoas. Todos os meus diplomas não me valeram de nada lá, voltei a me sentir um analfabeto político e só posso agradecer a estes catadores e catadoras por tudo que me ensinaram.
* Diretor do Sisejufe e de Formação da CUT-RJ
sábado, 15 de janeiro de 2011
Balbúrdia das letras: Banho de realidade
Balbúrdia das letras: Banho de realidade: " Companheiros e companheiras, esta semana foi uma semana fantástica para mim. Estive, como um dos repre..."
Banho de realidade
Companheiros e companheiras, esta semana foi uma semana fantástica para mim.
Estive, como um dos representantes da Escola 7 de Outubro em Minas Gerais (da qual a CUT-RJ faz parte) acompanhados sindicalistas da CISLA-Itália, que é uma das apoiadoras da escola, e foi quem financiou sua construção.
Mas não pensem que vou a falar de uma troca de experiências internacionais, os sindicalistas da Itália não são os protagonistas da estória que vou contar, mas sim os catadores e principalmente as catadoras de rua (68% da força de trabalho da reciclagem de lixo).
A pedido da escola fiquei com os sindicalistas os cinco dias deles em Belo Horizonte, e o "turismo" que nós fizemos foi visitar cerca de 7 unidades de reciclagem, Galpões de lixo em BH e na grande BH.
Confesso que tenho andado um pouco desanimado com a luta sindical, ou melhor, com falta de perspectiva global dela, já que nunca deixei de lutar e participar. A luta sindical por vezes é extremamente corporativa, e nos faz esquecer efetivamente o PORQUÊ LUTAMOS.
Visitar aqueles galpões me fez relembrar isto. Uma coisa é lutar para aumentar o salário da minha categoria de classe média, um objetivo realmente digno, importante, mas que não vai mudar o mundo e ainda escutar críticas ferozes contra o Governo num todo, por conta de não termos conseguido o nosso aumento.
Toda a visão global de país então desce a um míope juízo de valor de se o governo deu ou não deu aumento salarial para nossa categoria.
Embora ache tático e importante esta luta e faça parte da análise do meu juízo de valor o quanto o governo vai dar para os servidores públicos, isto não determina minha análise se o Governo Lula ou Dilma é bom ou ruim.
O fato é que os projetos sociais, apoiados neste e por este Governo tem mudado a vida de milhões de brasileiros.
Não só os projetos do Governo, o Governo não tem que fazer tudo ou ser paternalista, ele faz realmente a parte dele, nunca dantes na história deste país houve tal atenção à questão social.
Do outro lado o próprio movimento social tem que buscar sua dignidade, como o fazem as catadoras (principalmente) e os catadores de lixo, as recicladoras e os recicladores de BH.
Me oxigenou a militância conversar com catadores que antes da transformação da vida deles, viviam nos lixões, junto com seus filhos, eram extremamente discriminados, eram invisíveis à sociedade.
Tinha até uma ex catadora que hoje é universitária na Universidade Federal de Viçosa (política de cotas do Governo Lula).
Em Raposos, uma cidade destruída pela mineração, a Anglo, uma empresa inglesa, depois de extrair todo o ouro, deixou só os cacos na cidade, é dona de toda a cidade e a cidade vive sem empregos.
A pouca mão de obra empregada ou é num pequeno Comércio, ou viaja para as cidades vizinhas para se empregar no Governo, na Fiat, na Vale.
A cidade só não está pior por conta do bolsa família.
Antes, segundo relatos dos próprios moradores, havia muitas crianças fora da escola, mas como o benefício, que parece pequeno, é maior do que catar lixo, trabalhar para carvoarias ou outros sub-empregos, os próprios pais fazem de tudo para deixar as crianças na escola.
20 reais, 200 reais, pode parecer muito pouco para nós da classe média, mas para gente, como os trabalhadores da Cooperativa de lixo, alguns meses, separam para reciclagem lixo o mês inteiro, para ganhar de 100 a 300 reais, é um banquete. Só no mês de dezembro é que conseguiram pagar um salário mínimo. O esforço da cooperativa é que todos os meses se chegue minimamente a este valor.
Só conversando com eles, se tem idéia da importância destes programas sociais (não tenham dúvida, vieram para ficar e toda a sociedade desigual brasileira tem que arcar com eles, tem que pagar por eles através dos impostos) para uma vida digna para estas e estes trabalhadores jogados à margem da sociedade de consumo.
Durante uma semana, tomei um banho de realidade e contra a invisibilidade desta Etiópia que está tão perto da gente e que a gente ignora, completamente.
O mais bonito foi ver aquelas mulheres (principalmente) e aqueles homens se apoderarem da sua dignidade. Se antes catavam nos lixões e ganhavam menos de 100 reais ao mês, hoje a maioria das cooperativas paga ao menos uma salário mínimo, e já há cooperativas gerando renda de 900, mil reais mês.
O que antes era subemprego virou profissão, e com o trabalho ideológico das cooperativas, que explicam para estas trabalhadoras e trabalhadores a importância deles para a sociedade, o efeito na recuperação da auto-estima e dignidade é fantástico.
De segunda a quinta eu estive nos lixões, na sexta eu estive no seminário.
E como é espantosa a transformação daquelas mulheres e homens. Ao vê-los trabalhando com seus macacões de catadores, suas blusas e luvas, não se pode imaginar completamente como viraram protagonistas das suas histórias.
Não mais marginais, não mais aceitam serem marginalizados como eram antes nas ruas e nos lixões. Agora vivem em casas, agora pagam aluguel ou conseguiram uma moradia do Minha Casa, Minha Vida.
Na sexta, no seminário, mulheres vaidosas, lindas, com unhas pintadas, bem arrumadas, com seus vestidos de festa, tomaram o microfone e se apoderaram de discursos altamente inflamados e não-alienados.
Fiquei com uma ponta de inveja. Nós da classe média, nas nossas assembléias sindicais não temos 1/10 da consciência de classe destas pessoas.
Elas valorizam seu trabalho, sabem que estão salvando o planeta, sabem da importância delas e deles na luta por um país e um mundo melhor. Não é uma discussão sindical apenas de índice de aumento salarial, antes, é uma discussão global da importância do seu trabalho, da sua vida e do seu papel na sociedade.
É sempre bom um banho de realidade para descobrir ou redescobrir o "PORQUÊ LUTAMOS".
Se não perdemos de foco o horizonte de nossa luta, a perspectiva de uma sociedade melhor, socialistas, e passamos a pensar que efetivamente o objetivo da luta sindical e da luta dos movimento sociais em geral é apenas por aumentos corporativos, sem pensar na sociedade como um todo e no futuro de um projeto de Nação que incorpore estas e outras pessoas.
Todos os meus diplomas não me valeram de nada lá, voltei a me sentir um analfabeto político e só posso agradecer a estes catadores e catadoras por tudo que me ensinaram.
Estive, como um dos representantes da Escola 7 de Outubro em Minas Gerais (da qual a CUT-RJ faz parte) acompanhados sindicalistas da CISLA-Itália, que é uma das apoiadoras da escola, e foi quem financiou sua construção.
Mas não pensem que vou a falar de uma troca de experiências internacionais, os sindicalistas da Itália não são os protagonistas da estória que vou contar, mas sim os catadores e principalmente as catadoras de rua (68% da força de trabalho da reciclagem de lixo).
A pedido da escola fiquei com os sindicalistas os cinco dias deles em Belo Horizonte, e o "turismo" que nós fizemos foi visitar cerca de 7 unidades de reciclagem, Galpões de lixo em BH e na grande BH.
Confesso que tenho andado um pouco desanimado com a luta sindical, ou melhor, com falta de perspectiva global dela, já que nunca deixei de lutar e participar. A luta sindical por vezes é extremamente corporativa, e nos faz esquecer efetivamente o PORQUÊ LUTAMOS.
Visitar aqueles galpões me fez relembrar isto. Uma coisa é lutar para aumentar o salário da minha categoria de classe média, um objetivo realmente digno, importante, mas que não vai mudar o mundo e ainda escutar críticas ferozes contra o Governo num todo, por conta de não termos conseguido o nosso aumento.
Toda a visão global de país então desce a um míope juízo de valor de se o governo deu ou não deu aumento salarial para nossa categoria.
Embora ache tático e importante esta luta e faça parte da análise do meu juízo de valor o quanto o governo vai dar para os servidores públicos, isto não determina minha análise se o Governo Lula ou Dilma é bom ou ruim.
O fato é que os projetos sociais, apoiados neste e por este Governo tem mudado a vida de milhões de brasileiros.
Não só os projetos do Governo, o Governo não tem que fazer tudo ou ser paternalista, ele faz realmente a parte dele, nunca dantes na história deste país houve tal atenção à questão social.
Do outro lado o próprio movimento social tem que buscar sua dignidade, como o fazem as catadoras (principalmente) e os catadores de lixo, as recicladoras e os recicladores de BH.
Me oxigenou a militância conversar com catadores que antes da transformação da vida deles, viviam nos lixões, junto com seus filhos, eram extremamente discriminados, eram invisíveis à sociedade.
Tinha até uma ex catadora que hoje é universitária na Universidade Federal de Viçosa (política de cotas do Governo Lula).
Em Raposos, uma cidade destruída pela mineração, a Anglo, uma empresa inglesa, depois de extrair todo o ouro, deixou só os cacos na cidade, é dona de toda a cidade e a cidade vive sem empregos.
A pouca mão de obra empregada ou é num pequeno Comércio, ou viaja para as cidades vizinhas para se empregar no Governo, na Fiat, na Vale.
A cidade só não está pior por conta do bolsa família.
Antes, segundo relatos dos próprios moradores, havia muitas crianças fora da escola, mas como o benefício, que parece pequeno, é maior do que catar lixo, trabalhar para carvoarias ou outros sub-empregos, os próprios pais fazem de tudo para deixar as crianças na escola.
20 reais, 200 reais, pode parecer muito pouco para nós da classe média, mas para gente, como os trabalhadores da Cooperativa de lixo, alguns meses, separam para reciclagem lixo o mês inteiro, para ganhar de 100 a 300 reais, é um banquete. Só no mês de dezembro é que conseguiram pagar um salário mínimo. O esforço da cooperativa é que todos os meses se chegue minimamente a este valor.
Só conversando com eles, se tem idéia da importância destes programas sociais (não tenham dúvida, vieram para ficar e toda a sociedade desigual brasileira tem que arcar com eles, tem que pagar por eles através dos impostos) para uma vida digna para estas e estes trabalhadores jogados à margem da sociedade de consumo.
Durante uma semana, tomei um banho de realidade e contra a invisibilidade desta Etiópia que está tão perto da gente e que a gente ignora, completamente.
O mais bonito foi ver aquelas mulheres (principalmente) e aqueles homens se apoderarem da sua dignidade. Se antes catavam nos lixões e ganhavam menos de 100 reais ao mês, hoje a maioria das cooperativas paga ao menos uma salário mínimo, e já há cooperativas gerando renda de 900, mil reais mês.
O que antes era subemprego virou profissão, e com o trabalho ideológico das cooperativas, que explicam para estas trabalhadoras e trabalhadores a importância deles para a sociedade, o efeito na recuperação da auto-estima e dignidade é fantástico.
De segunda a quinta eu estive nos lixões, na sexta eu estive no seminário.
E como é espantosa a transformação daquelas mulheres e homens. Ao vê-los trabalhando com seus macacões de catadores, suas blusas e luvas, não se pode imaginar completamente como viraram protagonistas das suas histórias.
Não mais marginais, não mais aceitam serem marginalizados como eram antes nas ruas e nos lixões. Agora vivem em casas, agora pagam aluguel ou conseguiram uma moradia do Minha Casa, Minha Vida.
Na sexta, no seminário, mulheres vaidosas, lindas, com unhas pintadas, bem arrumadas, com seus vestidos de festa, tomaram o microfone e se apoderaram de discursos altamente inflamados e não-alienados.
Fiquei com uma ponta de inveja. Nós da classe média, nas nossas assembléias sindicais não temos 1/10 da consciência de classe destas pessoas.
Elas valorizam seu trabalho, sabem que estão salvando o planeta, sabem da importância delas e deles na luta por um país e um mundo melhor. Não é uma discussão sindical apenas de índice de aumento salarial, antes, é uma discussão global da importância do seu trabalho, da sua vida e do seu papel na sociedade.
É sempre bom um banho de realidade para descobrir ou redescobrir o "PORQUÊ LUTAMOS".
Se não perdemos de foco o horizonte de nossa luta, a perspectiva de uma sociedade melhor, socialistas, e passamos a pensar que efetivamente o objetivo da luta sindical e da luta dos movimento sociais em geral é apenas por aumentos corporativos, sem pensar na sociedade como um todo e no futuro de um projeto de Nação que incorpore estas e outras pessoas.
Todos os meus diplomas não me valeram de nada lá, voltei a me sentir um analfabeto político e só posso agradecer a estes catadores e catadoras por tudo que me ensinaram.
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