terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A infância na poesia de Pablo Neruda



O objetivo desta dissertação é fazer um roteiro poético da infância na poesia de Pablo Neruda, da infância mítica e onírica, como é representada na poesia e na biografia de Neruda, na qual o panteísmo dos bosques e das florestas de Temuco, assim como as experiências auto-biográficas nos bosques andinos irá para sempre influenciar seus poemas, reaparecendo, por exemplo, em Canto General, num poema de sua “maturidade”, como alturas de Machu Pichu.
Discutir a imagem da infância, sempre idealizada, como retorno, como onírico, como estilização da infância real e busca da inocência perdida, do “bom selvagem de Rousseau”, de busca mítica do próprio “eu”, do jogo psicanalítico entre o “id” e o “ego”, com a infância representando o id, o irracional, o desejo.
O texto vai mostrar como as imagens da infância em Temuco irão reaparecer em toda a obra nerudiana.


Palavras-chave: Pablo Neruda, Temuco, Infância, Crepusculário, 20 poemas de amor.


A INFÂNCIA NA POESIA DE PABLO NERUDA
Este texto visa averiguar o lugar que a infância vai guardar na poesia de Pablo Neruda, não a infãncia real, mas a visão de infância rememorada e criada na literatura, a infância como catarse e onírico, como sonho e recomeço, inserido nas tentativas iníciais, telúricas e panteística da visão da natureza em Temuco. A infância num lugar selvático e pobre, na beleza dura do bosque e da floresta andino, no qual passeava com seu pai, maquinista de locomotivas. Também a visão da vida dura dos trabalhadores numa pequena vila no coração da selva chilena, a vida familiar com su “mamadre”, a madrasta doce que substituiu a mão de Neruda, morta na primeira infância, e que encheu de cuidados o menino, abrandando a dureza da sua condição. Na própria narração de Neruda:

comenzaré por decir, sobre los días e años de mi infancia, que mi único personaje inolvidable fue la lluvia. La gran lluvia austral que cae como una catarata del Polo, desde los cielos del Cabo de Hornos, hasta la frotera. En esta frontera, o Far West de mi patria, nací a la vida, a la tierra, a la poesia, a la lluvia.
Por muco que he caminado me parece que se ha perdido ese arte de llover que se ejercía como un poder terrible y sutil en mi Araucania natal. Llovía meses enteros, años enteros. La lluvía caía en hilos como largas agujas de vidrio que se rompían en los techos, o llegabans en olas transparentes, contra las ventanas, y cada casa era una nave que dificilmente llegaba a puerto en aquel oceáno de invierno.”1

A chuva em Neruda não é a pura chuva da natureza, é uma sensação sinestésico-poética panteísta que perdurará para sempre em seus poemas, a relação onírica que se expressa ainda melhor na poesia, a chuva caindo como agulhas de vidro nos telhados que são naves a navegar num oceano chuvoso. Este retorno poético a uma natureza idealizada não será substituída em nenhuma das fases de Neruda. Mesmo na sua fase mais realista, no confronto da Guerra Civil Espanhola, as hipérboles e hipérbatos de Pablo Neruda, sempre tendem ao majestoso espetáculo do menino que andava a caçar caracóis e aranhas na selva andino. Este sentimento de surpresa e encantamento com o mundo, a relação estreita entre o onírico, a mimésis e a catarse poética, por isto a poesia é um veículo literário por excelência para este mergulho imaginário na infância, tão ou mais que a prosa, que apenas a relata, sem vivenciar em profundidade o mundo do id, do subconsciente, no qual se adormece e se vivencia extra-temporalmente todos os traumas, sustos, mas também as maravilhas e os prazeres da primeira infância. De outra parte, a infância em Neruda também é tomar parte com a realidade miserável do mundo proletário do interior chileno:
Por las veredas, pisando en una piedra y en otra, contra frío y lluvía, andábamos hacia el colegio. Los paraguas se los llevaba el viento. Los impermeables eran caros, los guantes no me gustaban, los zapatos se empapaba. Siempre recordaré la los calcetines mojados junto al brasero y muchos zapatos echando vapor, como pequeñas locomotoras. Luego venían las inundaciones, que se llevaban las poblaciones donde vivían la gente más pobre, junto al río. También la tierra se sacudía, temblorosa. Otras veces en la cordillera asomaba un penacho de luz terrible: el volcán Llaíma despertaba.
Temuco era una ciudad pionera, de esas ciudades sin pasado, pero com ferreterías. Como los indios no saben leer, las ferreterías ostentan sus notables emblemas en las calles: un imenso serrucho, una olla gigantesca, un candado ciclópero, una cuchara antártica. Más allá, las zapaterías, una bota colosal.2

Neste trecho, na recordação da infância, vê-se a dualidade id x ego, sonho x realidade, infância maturidade. No rememorar da infância, não são só as sensações de prazer e medo, a natureza representada em sua grandiosidade, mas toda uma narrativa social (que também acompanhará Neruda na sua poesia), uma consciência de classe, da sua pobreza, filho de um maquinista, e da pobreza ainda maior a seu redor. Mesmo na representação retroativa da infância, é sempre a voz do adulto que a reconstitui, assim, tanto o exagero nas sensações, que caracteriza a parte sentimental, emocional, como a parte ligada ao racional, às representações sociais, ou seja ao ego, à maturidade. Este jogo também é parte da poesia, a tentativa de compreensão humana dos jogos caóticos de sentimentos e impressões de uma época, e será contínua na poesia de Pablo Neruda, senão, vejamos este poema de Alturas de Machu Pichu:3
Alturas de Machu Pichu
I
Del aire, como una red vacía
iba yo entre las calles y la atmósfera, llegando y despidiendo,
en el advenimiento del otoño la moneda extendida
de las hojas, y entre la primavera y las espigas,
lo que el más grande amor, como dentro de un guante
que cae, nos entrega como una larga luna.

(Días de fulgor vivo en la intemperie
de los cuerpos: aceros convertidos
al silencio del ácido:
noches desdichadas hasta la última harina:
estambres agredidos de la patria nupcial.)

Alguien que me esperó entre los violines
encontró un mundo como una torre enterrada
hundiendo su espiral más abajo de todas
las hojas de color de ronco azufre:
más abajo, en el oro de la geología,
como una espada envuelta en meteoros,
hundí la mano turbulenta y dulce
en lo más genital de lo terrestre.

Puse la frente entre las olas profundas,
descendí como gota entre la paz sulfúrica,
y, como un ciego, regresé al jazmín
de la gastada primavera humana.

Este poema mostra a permanência dos temas e da experiência de infância no Neruda maduro, em sua fase e face mais social, Canto General. Quando Neruda vai até a cidade inca perdida, última cidadela da grande civilização ancestral, ele faz o paralelismo da origem de sua infância com a origem mítica da América Austral. Em todo o poema, o panteísmo naturalista de sua primeira infância refloresce, Machu Pichu é Temuco, é o espanto infantil diante do novo mundo descoberto, é como se o poeta adulto fosse de novo passageiro do trem que o levava pelo bosque andino, é o mesmo espanto, a mesma estupefação. As sensações e angústias de infância, a procura do infinito e do atemporal através do mergulho íntimo, reaparece, num livro dedicado à luta social. Quem não conhece os traços de infância assinalados em Confieso que he vivido e em Para nascer nasci, não entenderá este paralelismo feito aqui. É o retorno íntimo a temas recorrentes em sua primeira poesia,inclusive o tema erótico, “en lo más genital de lo terrestre”, como o espanto adolescente diante da descoberta do sexo, vejamos por exemplo,em Para Nascer nasci.4

minha prima Isabela...Não conheci minha prima Isabela. Atravessei, anos depois, o pátio ajardinado e que, me dizem, nos vimos e nos amamos na infância. É um lugar de sombra: como nos cemitérios há neles árvores inverniças e endurecidas. Um musgo amarelo rodeia as cinturas de umas grandes malgas de greda cinzenta no pátios destas lembranças... Foi pois ali onde vi minha prima Isabela.
Devo ter lhe posto esses olhos dos meninos que esperam algo que vai suceder, está sucedendo, sucedeu.
Prima Isabela, noiva destinada, corre um caudal contínuo, terno entre nossas solidões. Eu deste lado deito a correr na direção de vales que não diviso, meus gritos, minhas ações, que regressam ao meu lado em ecos inúteis e perdidos. Tu do outro lado.
Muitas vezes, porém, rocei por ti, Isabela. Porque tu serás – quem sabe onde! – essa recolhida mulher que, quando caminho no crepúsculo, conta da janela, como eu, as primeiras estrelas.
Prima Isabela, as primeiras estrelas.

Neste trecho do livro Para nascer nasci, se vê claramente a idealização da infância, a prima, primeiro amor e primeiro desejo, que na verdade Neruda não se lembra de ter amado. Na recordação dos outros adultos, o próprio poeta idealiza seu primeiro amor, seus primeiros silêncios, espantos e desejos. Na verdade, em quase toda a poesia, o tema da infância é recontado e remontado pelos adultos, como se fora o idílio da inocêncio, do “bom selvagem” rousseauniano, como um eterno retorno, uma volta a inocência e ao encantamento perdido. Neste caso, há também a frustração por haver um oceano de distância e toda uma realidade que os separou, e que faz de prima Isabela as primeiras estrelas, as primeiras cintilações, na verdade, a idealização da mulher que fazem os meninos e os adolescentes na puberdade. Esta sensação de desatino, naufrâgio e perdição na mulher amada, idealizada, como porto e destino será também tema de Neruda em seu Veinte Poemas de amor e una canción desesperada, que mesmo não sendo um livro que remonta à infância, por falar das primeiras experiências amorosas juvenis, na profundidade do sentimento que experimenta, também por serem suas primeiras experiências, e duas comparações com a natureza, inclusive com o espanto oceânico que sentiu Neruda à primeira vez que viu o mar, marcam um retorno a sensações infantis e adolescentes, o abandono, a melancolia, o desespero, a sensação angustiosa do mergulho em sensações no qual o racional não tem o controle, vejamos a Canção desesperada do citado livro:5
LA CANCIÓN DESESPERADA

Emerge tu recuerdo de la noche en que estoy.
El río anuda al mar su lamento obstinado.

Abandonado como los muelles en el alba.
Es la hora de partir, oh abandonado!

Sobre mi corazón llueven frías corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos!

En ti se acumularon las guerras y los vuelos.
De ti alzaron las alas los pájaros del canto.

Todo te lo tragaste, como la lejanía.
Como el mar, como el tiempo. Todo en ti fue
naufragio!

Era la alegre hora del asalto y el beso.
La hora del estupor que ardía como un faro.

Ansiedad de piloto, furia de buzo ciego,
turbia embriaguez de amor, todo en ti fue naufragio!

En la infancia de niebla mi alma alada y herida.
Descubridor perdido, todo en ti fue naufragio!

Te ceñiste al dolor, te agarraste al deseo.
Te tumbó la tristeza, todo en ti fue naufragio!

Hice retroceder la muralla de sombra,
anduve más allá del deseo y del acto.

Oh carne, carne mía, mujer que amé y perdí,
a ti en esta hora húmeda, evoco y hago canto.

Como un vaso albergaste la infinita ternura,
y el infinito olvido te trizó como a un vaso.

Era la negra, negra soledad de las islas,
y allí, mujer de amor, me acogieron tus brazos.

Era la sed y el hambre, y tú fuiste la fruta.
Era el duelo y las ruinas, y tú fuiste el milagro.

Ah mujer, no sé cómo pudiste contenerme
en la tierra de tu alma, y en la cruz de tus brazos!

Mi deseo de ti fue el más terrible y corto,
el más revuelto y ebrio, el más tirante y ávido.

Cementerio de besos, aún hay fuego en tus tumbas,
aún los racimos arden picoteados de pájaros.

Oh la boca mordida, oh los besados miembros,
oh los hambrientos dientes, oh los cuerpos trenzados.

Oh la cópula loca de esperanza y esfuerzo
en que nos anudamos y nos desesperamos.

Y la ternura, leve como el agua y la harina.
Y la palabra apenas comenzada en los labios.

Ése fue mi destino y en él viajó mi anhelo,
y en él cayó mi anhelo, todo en ti fue naufragio!

Oh sentina de escombros, en ti todo caía,
qué dolor no exprimiste, qué olas no te ahogaron.

De tumbo en tumbo aún llameaste y cantaste
de pie como un marino en la proa de un barco.

Aún floreciste en cantos, aún rompiste en corrientes.
Oh sentina de escombros, pozo abierto y amargo.

Pálido buzo ciego, desventurado hondero,
descubridor perdido, todo en ti fue naufragio!

Es la hora de partir, la dura y fría hora
que la noche sujeta a todo horario.

El cinturón ruidoso del mar ciñe la costa.
Surgen frías estrellas, emigran negros pájaros.

Abandonado como los muelles en el alba.
Sólo la sombra trémula se retuerce en mis manos.

Ah más allá de todo. Ah más allá de todo.

Es la hora de partir. Oh abandonado!

Ficam claros os sentimentais infantis, e quase edipianos, o abandono, a melancolia, o desespero, e a permanência da natureza, abandonado com os cais no alvorecer. A figura poética vem cingida em sonho, o mergulho no mar, é também o mergulho cego na origem, a volta mítica à origem, quase a volta ao feto, já que o mar pode também representar a geração e o início da vida. Na verdade, as figuras poéticas da infâncias se espalham por toda a poesia de Pablo Neruda, como um retorno estético, um recurso estilístico, que levo o leitor ao mergulho em seu próprio id e em seu próprio sonho, em suas próprias sensações sinestésicas de dor e prazer. Fogo e água, fogo e cinzas, calor e frio, todo o tempo a dualidade antitética leva a sensações quase barrocas, as hipérboles, o exagero típico dos amores juvenis e adolescentes. A poesia vive neste jogo de tentar trazer para o cotidiano racional e duro, as sensações enterradas nos túmulos da alma. Os beijos estão enterrados no subconsciente, como lembranças indeléveis de todo o vivido, a rememoração também é catarse, a poesia uma fuga/proteção contra o abandono. A infância não é só vivida como narrativa, mas como estrutura de símbolos permanentes que vão permanecer em toda a poesia de Neruda.
Também a figura materna, idealizada, no caso, a sua madrasta, chamada por ele mesmo de “mamadre”, Trinidad Candia Marverde, assim ele se refere a sua madrasta e aos “mistérios” da sus casa:
Mi padre se había casado en segundas nupcias con doña Trinidad Candia Marverde, mi madrasta. Me parece increíble tener que dar este nombre al ángel tutelar de mi infancia. Era diligente y dulce, tenía sentido de humor campesino, una bondad ativa infatigable.
Apenas llegaba mi padre, ella se transformaba sólo en una sombra suave como todas las mujeres de entonces y de allá.
En aquél salón vi bailar mazurcas y cuadrillas.
Había en mi casa también un baúl com objetos fascinantes. En el fondo relucía un maravilloso loro de calendario. Un día que mi madre revolvía aquella arca sagrada yo me caí de cabeza adentro para alcanzar el loro. Pero cuando fui creciendo lo abría secretamente. Había unos abanicos perciosos e impalpables.
Conservo otro recuerdo de aquel baúl. La primera novela de amor que me apasionó. Eran centenares de tarjetas postales enviadas por alguien que las firmaba no sé si Enriques o Alberto y todas dirigidas a María Thielman. Estas tarjetas eran maravillosas. Eran retractos de las actrizes de la época con vidriecitos engastados y a veces cabellera pegada. También había castillos, ciudades y paisajes lejanos. Durante años sólo me complací en las figuras. Pero, a medidas que fui creciendo, fui leyendo aquellos mensajes de amor escritos con una perfecta caligrafía. Siempre me imaginé que el galán era un hombre de sombrero hongo, de bastón y brillante en la corbata. Pero aquellas eran de arrebatadora pasión. Estaban enviadas desde todos los puntos del globo por el viajero. Estaban llenos de frases deslumbrantes, de audacia enamorada. Comencé yo a enamorarme también de Maria Thielman. A ella me imaginaba como una desdeñosa actriz, coronada de perlas. Pero, cómo habían llegado al baúl de mi madre estas cartas, nunca pudo saberlo”.


Aqui, muitos dos temas recorrentes da literatura sobre a infância, primeiro a mãe, real, mas idealizada, sempre a portadora da ternura e do carinho infinitos, e também com caracterização social, leal, submissa, silenciosa, a sombra do pai de Neruda. No restante do texto, a recontagem da infãncia com a imaginação preenchendo magicamente os vazios do esquecimento. O autor das cartas, não se sabe se é Enrique o Alberto, mas há uma lembrança total de que as cartas eram “maravilhosas”. Na verdade, a lembrança da surpresa das cartas de amor supre as lacunas do esquecimento e viram a primeira novela lida pelo poeta, além do paralelismo dos cartões postais às próprias viagens de Neruda, que foi diplomata e acabou por viajar por um tempo muito grande de sua vida. Sempre na recontagem mítica a infância é miraculosa e mágica, e surge o baúl donde surgem figuras e cartaz que fazem voar a imaginação e a veia poética. Para entender como calou profundamente em Neruda sua infância na influência de suas imagens poéticas, voltamos a Confieso que he vivido e anotamos a sua rememoração da imagem do trem e das viagens pelos bosques:6
El tren recorría un trozo de aquella provincia fría desde Temuco hasta Carhue. Cruzaba inmensas extensiones deshabitadas sin cultivos, cruzaba los bosques vírgenes, sonaba como un terremoto por túneles y puentes. Las estaciones quedaban aisladas en medio del campo, entre aromos e manzanos floridos. Los indios araucanos con sus ropas rituales y su majestad ancestral esperaban en las estaciones para vender a los pasajeros corderos, gallinas, huevos y tejidos. (…)
Y luego la ciudad fluvial. El tren daba sus pitazos más alegres, oscurecía el campo y la estación ferroviaria con inmensos penachos de humo de carbón, tintineaban las campanas, y se olía ya el curso ancho, celeste y tranquilo, del río Imperial, que se acercaba del óceano.

Na recordação do próprio poeta, vários dos elementos constituintes permanentes da sua poesia, a natureza, o bosque, os sinos, que marcarão com seus sons e aparência toda sua poesia e o encontro com o mar, com o qual Neruda terá um deslumbramento infantil por toda sua temática poética. Neruda é um pintor marinho, e volta sempre ao mar para falar de seus sentimentos, abandono, encontro, êxtase, maravilhamento, o oceano faz parte integrante permanente do seu onírico poético, vejamos como ele mesmo fala do mar em outro trecho do mesmo livro: 7
Son playas que parecen infinitas. Forman a lo largo de Chile, como el anillo de un planeta, como una sortija envolvente acosada por el estruendo de los mares australes: una pista que semeja dar la vuelta por la costa chilena más allá del polo sur”

Assim, o mar de Neruda nunca é geográfico, é sempre a representação maravilhosa de um êxtase permanente, como seu primeiro encontro com o mar nas viagens ferroviárias. Para a poesia, este êxtase com o selvático, esta permanência do maravilhamento infantil é crucial para a criação das figuras poéticas. O deslumbramento faz com que o mar nunca seja apenas o oceano, mas sempre a metáfora dos sentimentos e sensações que evoca, e é uma das figuras mais recorrentes na poesia de Pablo Neruda. Ele explica muitas das suas experiências e vivências através de figuras marinhas, seja a imensidão, seja o ritmo das ondas, seja a fugacidade da vida, seja o amor como ondas quebrando na praia. O mar é uma das figuras que atravessa toda sua vida, desde a sua infância, como uma rememoração infantil reinterpretativa do mundo. Assim também, ele faz recuar a criação de sua poesia a sua primeira infância e a sua solidão:8
Que soledad la de un pequeño niño poeta, vestido de negro, en la frontera especiosa e terrible. La vida y los libros poco a poco me van dejando entrever misterios abrumadores.
No pudo olvidarme de lo que leí anoche: la fruta del pan salvó a Sandokan y sus compañeros en una lejana Malasia.
No me gusta Búfallo Bill porque mata a los indios. Pero qué buen corredor de caballos! Que hermosas las praderas y las tiendas cónicas de los pieles rojas!
Muchas veces me han preguntado cuándo escribí mi primer poema, cuándo nació mi poesía.
Trataré de recordarlo. Muy atrás en mi infancia y habiendo apenas aprendido a escribir, sentí una vez una intensa emoción y tracé unas cuantas palabras semiarrumadas, pero extrañas a mi, diferentes del lenguaje diario. Las puse en limpio en un papel, preso de una ansiedad profunda, de un sentimiento hasta entonces desconocido, especie de angustia y de tristeza. Era un poema dedicado a mi madre, es decir, a la que conocí por tal, a la angelical madrastra cuya suave sombra protegió toda mi infancia. Completamente incapaz de juzgar mi primera producción, se la llevé a mis padres. Ellos estaban en el comedor, sumergidos en una de esas conversaciones en en voz baja que dividen más que un río el mundo de los niños y el de los adultos. Les alargué el papel con las líneas, tembloroso aún con la primera visita de la inspiración. Mi padre, distraído, lo tomó de mis manos, distraídamente lo leyó, distraídamente me lo devolvió, diciendome:
De dónde lo copiaste?
Y siguió conversando en voz baja con mi madre de sus importantes y remotos asuntos.
Me parece recordar que así nació mi primer poema y que así recibía la primera muestra distraída de crítica literaria.”

Fazer retroceder a criação artística e estilística à infância também é um mito de origem, de dom, ou talento nato. Na poesia de Neruda, todos os mitos de infância são muito fortes e recorrentes. A base de exaltação à natureza, de sinestesia, de mergulho nas dores, angústias e prazeres da alma, está ligado, inclusive em sua autobiografia, à recordação de sua infância e suas aventuras pelo bosque chileno, e dos laços familiares, do pai amoroso, mas severo, disciplinador e distraído, da mãe, atenta, afetuosa e sempre presente. É o recontar e o rememorar da infância que é preenchido permanentemente pela memória adulta, ou pela arte adulta, pela estética adulta. O que teria ao fim a relação real da poesia infantil de Neruda com sua poesia adulta? Imaginamos que pouco ou quase nada, mas nos relatos de infância sempre se recua a mais tenra idade e os laços são encadeados, da origem mítica, resultando numa correlação em que o real se subsume à imaginação, e todos os acontecimentos são recontados de forma a se resolverem como causa do traço adulto, sem interrupções, ou separações causados por experiências intermediárias. Não há antíteses, ou saltos, mas acumulações quantitativas que se revelarão no resultado final. Sabemos que a trajetória não é bem assim, o remontar da história acaba preenchendo as lacunas de memória com a imaginação já madura, e assim, os relatos completos, na verdade são a idealização da infância, que antropoformiza a história de forma que tudo conspira, desde a mais tenra infância para que Neruda seja o grande poeta que foi.
A permanência temática do que foi vivido na infância, como um retorno permanente à terra natal, e no caso da mitologia nerudiana, ancestral, fazendo retroceder ao passado araucano e mapuche, dos povos originários, do grande império Inca massacrado (em Alturars de Machu Pichu), e uma tentativa de reintegralização, Tentativa do homem infinito, como ele mesmo grafa em um livro sim. Ao mesmo tempo, a poesia social e socialista, de cunho marxista, com uma outra visão, de finitude, de uma ética agnóstica sem porvir místico e mítico, como só a poesia é capaz de fazer a mescla. Se a militância política socialista e marxista de Neruda, no Partido Comunista Chileno, assumindo todos os compromissos que um militante comunista deve assumir, alguns contraditórios e polêmicos, haja vista que o PCC segue a orientação soviética e Neruda jamais irá sair do Partido Comunista, mesmo depois das denúncias do Vigésimo Congresso do PCUS e dos chamados “crimes de Stálin”. A poesia de Neruda, por seus elementos míticos ligados à terra, à infância, à pátria, mas uma pátria infantil e ancestral, jamais será reduzida ao realismo socialista que era cobrado dos escritores comunistas e que custou polêmicas com os surrealistas, causando o afastamento de André Breton do movimento comunista, e depois com o realismo fantástico sul-americano, que tinha vários militantes comunistas entre seus escritores, como Gabriel Garcia Márquez e Vargas Llosa (hoje um homem do establishment e da direita). Assim a estética de Neruda é muito própria e incomum, seguindo uma linha que mescla várias fases e experimentos da sua vida, aí inclui-se sua passagem na Espanha e as várias experiências vanguardistas das quais tomará parte.
Por último, neste trabalho, vamos comentar um texto da pesquisadora Beatriz Fabiana Olarieta, professora da UERJ, sobre O livro das perguntas, de Neruda, que seria para ela uma permanência, ou uma volta à infância na poesia do poeta. Já assinalamos aqui o forte lugar que a infância em Temuco tem na poesia de Neruda e a presença que as imagens poéticas oníricas e panteístas mantém na sua poesia. Para a professora Beatriz Fabiana Olarieta, O livro das perguntas tem um lugar ainda mais especial. No seu artigo ela tenta localizar este livro na literatura poética. Segundo ela:
este ensaio explora a infância como uma dimensão da existência humana que foge tanto da visão cronológica do tempo quanto da linguagemcapturada pela lógica. Ao longo do trabalho mostra-se como tempo e linguagem funcionam como estabilizadores da experiência e como a infância fere a forma de ordenar o mundo que eles habitualmente propiciam. Ao provocar uma desestabilização, ao entrar numa dimensão inaugural, a infância que habita nas crianças (mas não só nelas, nem sequer em todas elas) e na poesia abre uma oportunidade para a criação de novos sentidos e traz a multiplicidade e o movimento que habitam no mundo. Pensar-nos é necessariamente pensar-nos no tempo. Não há experiência possível fora do tempo. Por sua vez, da forma que entendamos o tempo dependerão as possibilidades ou impossibilidades da nossa experiência. A infância costuma ser considerada como uma etapa de transição que vai constituir o passado do qual nós adultos provimos. Do mesmo modo, é habitual transformá-la em promessa de futuro de nossa espécie. Na busca de uma compreensão que escapa dessa perspectiva, apresenta-se aqui a infância do tempo como um devir que excede os corpos das crianças e penetra no de um velho poeta. Deleuze permeia essa possibilidade. Por outra parte, nossa experiência também se define na linguagem. As palavras nos ensinarão não só a dizer, mas também a ver, a pensar, a compreender as coisas e a compreender-nos de um modo particular. 9

Assim, para a Fabiana, quando um poeta como Neruda utiliza de perguntas que teriam uma conotação infantil num livro de poesias, o livro das perguntas, ele faz uma inversão e uma subversão de cânones e regras. Este volta ao passado tem a particularidade de se subtrair ao logicismo cartesiano mais formal, e dar a liberdade fluida do onírico para a poesia.10
Então, quando alguém entra na infância da linguagem (além da idade que tenha), quando brinca com as palavras e as força a dizer coisas novas, brinca com os sentidos do mundo, brinca com o modo que esse mundo é pensado e percebido, com o modo ue esse mundo se apresenta e com as possibilidades que temos de agir nele.

Assim, dar “voz as crianças” é uma forma de libertar desejos poéticos profundos, que através da licença da idade ainda não madura dá um escapismo para sentimentos e formas, que de outra forma seriam censuradas pelo superego ou pela crítica literária. O retorno lúdico dá a liberdade de criação para um dimensão em que se pode brincar com palavras e sentidos, como nos cronópios e famas de Cortázar, que mitologicamente faziam a inversão e subversão de tudo, inclusive do tempo. Vejamos a análise que Olarieta faz de um trecho de Neruda:11
Pablo Neruda preencheu a páginas do Livro das perguntas (2008), tal como o título o indica, exclusivamente com perguntas como:
Como se chama a flor
que voa de pássaro em pássaro?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês? (XXIII)
Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?
Quem acorda o sol quando dorme
em sua cama abrasadora? (XXIX)
Foi onde enfim me perderam
que consegui me encontrar? (XXXIII)
Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?
As folhas vivem o inverno
em segredo, com as raízes?
Que aprendeu da terra a árvore
para conversar com o céu?(XLI)
Sofre mais quem espera sempre
ou quem nunca esperou ninguém? (XLII)
Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?
Para onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros? (XLIII)
O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?
E onde o espaço termina
se chama morte o infinito? (XLV)
Quando vejo de novo o mar,
o mar me viu ou não me viu? (XLIX)
Se todos os rios são doces
de onde o mar tira o sal?
Como sabem as estações
que devem trocar de camisa? (LXXII)
Podemos perceber como algo do que ouvimos nas expressões das crianças ecoa nos versos de Neruda. Alguma espécie de parentesco parece vinculá-los. Há algo de criança nesses versos. Mas, já não temos aqui a possibilidade de atribuir à idade a causa destas palavras simpáticas(?), imaturas(?), poéticas(?). Para não renunciar às explicações prontas, temos ainda o recurso de acusar Neruda de estar copiando às crianças. Mas, será que os versos de Neruda estão imitando a criança ainda não amadurecida? Outra possibilidade seria considerar que a causa do infantil desses versos se encontra nos destinatários. Será que o poetaestava querendo destinar seu livro às crianças? Qual é essa infância que percebemos no poeta chileno? Não está claro.O Livro das perguntas nos coloca perante a evidência de uma infância que não podemos digerir facilmente com as ideias que temos.

A crítica de Olarieta mostra a percepção do jogo que Neruda faz com as palavras e os sentidos, para além dos sentidos comuns dito adultos. Esta regressão, em perguntas que muitas vezes não parecem fazer “sentido”, vão buscar o sentido oculto, onírico, o sentido subconsciente, não desperto, o sentido não adulto. Na verdade, o livro das perguntas recoloca questões sobre a nossa percepção do mundo e até quando ela faz sentido, se o sentido puramente cronológico do tempo e o senso-comum que organiza o caos perceptivo bastam para todas as perguntas. É um livro de perguntas sem respostas, nas quais se inquere pelo simples prazer de inquirir, o que fazem as crianças, desde quando o mundo é uma novidade para elas, ao contrário dos adultos, para os quais o mundo vai perdendo o sabor e o viço. Por isto é um livro duplo, um livro de crianças para adultos, um livro de um adultos para crianças perspicazes. Prossegue Olarieta:
O livro, lançado no Brasil no ano 2008, não cede facilmente às classificações por idades em que a literatura tão comumente é processada pela indústria editorial. Será um livro próprio de uma coleção infanto-juvenil ou será um livro para adultos? A editora resolveu o problema colocando o título tanto entre os livros destinados às crianças quanto no setor nomeado “adulto”. Figura duas vezes no seu catálogo. Estas mais de 300 perguntas resultam inclassificáveis, resistem a serem definidas pelo claro contorno de um gênero ou subgênero definido com base na idade.
Vamos considerar, então, uma infância que de algum jeito tem a ver com ascrianças, mas que não tem a ver exclusivamente com elas, nem sequer tem a ver com todas as crianças.
(...)No que respeita ao tempo, a infância costuma ser pensada como uma etapa de transição que vai constituir o passado do qual nós adultos provimos. Esse trecho do caminho que hoje transitam aqueles que são crianças já foi percorrido e superado por nós e, por isso, achamos saber de que se trata. Ao mesmo tempo, costumamos transformar a infância em promessa de futuro de nossa espécie. São as crianças de hoje (adultos do amanhã) as que recebem a missão de melhorar no mundo aquilo que nós não quisemos ou não soubemos fazer. Essa visão tem de fundo uma concepção de tempo que ordena e distribui, uniformemente, momentos que se sucedem em uma linha cronológica. O tempo, desde esta perspectiva, parece algo estático e acumulável. Colocados aqui achamos que o tempo pode congelar-se. Dividindo meticulosamente com nossos relógios, em fragmentos exatamente iguais, segundos, minutos e horas; organizando em nossos calendários dias, meses e anos, acabamos acreditando que o tempo pode ser medido, controlado, que podemos distinguir quando cada fragmento começa e quando acaba. Inclusive chegamos a acreditar que podemos acumular tempo. E assim como sessenta segundos fazem um minuto e sete dias uma semana, determinada quantidade de anos faz uma infância. Desde essa lógica os versos de Pablo Neruda não tem mais chance do que a ser uma triste e empobrecida imitação de um tempo que para o velho poeta já passou e que não retornará.

O livro não tem “lógica” a partir da percepção de um tempo como uma cronologia contável e evolutiva, no qual cumprimos tarefas sociais e biológicas determinadas, e que inclusive é tempo de trabalho, alienado, vendido, com tarefas obrigatórias a serem cumpridas, contra o desejo e a vontade. Típico de adultos é alienar-se esta vontade sem reclamar, as crianças o tempo não é representado por tarefas. O mundo adulto as vai incorporando e disciplinando, hierarquizando. A escola não ensina somente ciência, ensina hierarquia, disciplina, tempo. Visto pelo tempo fordista-taylorista da produção o livro de Neruda é um contrassenso. A poesia tem também esta missão, de ser contrassenso num mundo alienado, de ser a crítica, por vezes disfarçada de pueril de uma lógica que não tem nenhuma lógica, das convenções sociais forçadas e marcadas no relógio. Por estas razões e que no onírico do surrealismo de Dalí o relógio derrete, é o tempo do sonho, do id, dos loucos e das crianças. A criança permissiva que ousa brincar com as palavras, “perder” seu tempo, a lógica contrária de que tempo é dinheiro. O tempo da fruição, do gozo, da brincadeira. O homem por definição, define-se no tempo e no espaço, mas as definições que temos do tempo e do espaço são sociais, assim como nossas noções de infância, que é um conceito criado historicamente. Fabiana comenta:
O filósofo Gilles Deleuze falando da arte, e especificamente da literatura, afirma: “À sua maneira, a arte diz o que dizem as crianças. Ela é feita de trajetos e devires” (1997, p. 78). Nesta imagem a infância está associada ao movimento, a trajetos e devires, ao deslocamento - e não à fixação em uma etapa com começo e fim.
Em L'Abécédaire (1996), uma longa entrevista na qual Claire Parnet oferece uma série de palavras ordenadas alfabeticamente para que o filósofo se pronuncie àrespeito, quando chega o momento do E, a palavra escolhida é enfant (criança). Claire Parnet pergunta, por detalhes e episódios da infância de Deleuze e ele conta. Em um momento a entrevistadora assinala da pouca importância que o filósofo dá a sua própria infância. Ele assente e começa a falar sobre a escrita e a pouca importância que tem para o escritor as questões individuais, a memória pessoal, o arquivo. A escrita é empurrar a linguagem ao limite - diz Deleuze -, gaguejar, devir uma criança, não a partir da própria infância, mas antes da infância do mundo.
Escrever é devir, afirma, devir-animal, devir-criança. Escreve-se para a vida, para devir algo, exceto devir um escritor e exceto devir um arquivo. Então, devir-criança, entrar na infância, não tem a ver com fazer um exercício de lembrar aquele momento da nossa vida, com tentar recuperar artificialmente esse tempo perdido. Tem a ver com se deixar levar por esse exercício de olhar o mundo, de se relacionar com ele desde uma espécie de fluxo infantil, de tempo infantil, de trajetos infantis.
Não se trata de voltar sobre a própria infância, mas antes, de entrar na “infância do mundo”, de permanecer uma criança do mundo. Essa infância do mundo não tem a ver com a criança que uma vez se foi, mas com o movimento de ser uma criança. Tratasse de entrar na intensidade de um tempo que não é quantificável, que não é mensurável, que se manifesta múltiplo e que nos permite fazer maleáveis os limites que definem nosso mundo.

Assim, a infância literária é sempre este retorno. Não é a infância real, ou o retorno real à infância, mas o retorno à infância pelo que ela representa aos olhos do adulto. A inocência, o bom selvagem, o id, o onírico, o tempo sem cronometria, o jogo. O eterno-devir de um tempo que flui sem necessariamente ser o tempo da morte e da angústia do fim. É uma recomposição, uma forma de reintegrar os medos. É a volta à infância do mundo, o século de ouro, sem mal e sem pecado. As perguntas de Neruda, no fim de sua vida, são o retorno do cansado viajante à sua terra natal e a recomposição poética dos sentidos do mundo. E neste ponto a poesia vale mais que a prosa. Mesmo que na prosa haja reconstituições da infâncias, são apenas narrativas de infância, a recomposição dos sentidos infantis, sem hierarquias, limites, responsabilidades é feito pelo poema, que não tem compromisso de verossimilhança. O sol pode ser uma laranja deliciosa de ser sugada, a catarse de tudo que não faz sentido. A busca da utopia tão sonhada. Olarieta explica assim O livro de perguntas:12
Uma criança irrompe no corpo velho de Neruda e também uma infância toma conta dos pequenos corpos das crianças. Eles estão entrando na “infância do mundo” que ultrapassa seus corpos e sua idade. Estão criando uma intimidade com o devir do mundo. Estão sendo pegos por um devir-criança. O infantil nas palavras das crianças não tem a ver com a curta idade delas. O infantil na literatura de Neruda não tem a ver com a idade do poeta nem com a idade de uns possíveis destinatários. O infantil em ambos os casos não é um adjetivo, esse que se usa para inferiorizar alguém acusando-o de ter uma atitude “infantil” ou inclusive para “empequenecer” uma literatura. O infantil aqui é um verbo, uma ação, um exercício que abre mundos, que traz novas formas de olhar e de transformar o que achamos já conhecido, já sabido; é olhar o mundo como se fosse a primeira vez; é trazer sua novidade, sua abertura - essa que tentamos de forma infrutífera cristalizar com nossa linguagem que explica e nos fornece certezas que fecham; é entrar no movimento do mundo que nada tem a ver com essa monótona repetição mecânica do mesmo que nossos orgulhosos relógios quantificam e secam.
Por que é que todo dia é hoje?
Quantas semanas têm um dia e quantos anos têm um mês?
Você já pensou se o esquilo se chamasse caranguejo?
Que distância em metros redondos há entre o sol e as laranjas?
Quando acende a luz, pra onde é que vai o escuro?
Meu desenho é pressa. É um traço correndo atrás do outro.
Essas palavras infantis são palavras que transportam nossas palavras adultas para sua fronteira, que deixam nossos sentidos suspensos, afinados, dispostos, para perceber a abertura do mundo e se permitem criar esse mundo. Isso é o que vincula as crianças com Neruda, a infância com a arte (neste caso a arte poética).

Assim, a infância em Neruda é uma forma de estética do absurdo, surreal, sonhada, não só no tempo, mas na linguagem. A infância não é só um tempo, uma linguagem própria, de mistérios, de segredos, de sussurros, que separam os problemas “sérios” do mundo adulto dos mundos de surpresas, inquietações e mistérios das crianças. A primeira visão do mar, o primeiro beijo, a primeira nudez, a primeira viagem de avião. Tudo na infância contém um frescor que se perde na idade adulta, e a linguagem infantil tem todo um cuidado com estas surpresas, assim como a linguagem dos esquimós tem dezenas de adjetivos para qualificar a neve. O retorno à linguagem da infância é duplo, é um retorno-fuga, e um retorno-devir. Se é uma fuga da realidade, é também uma negação dialética dela, no desejo de uma realidade outra melhor, o que a identifica com a linguagem utópica das épocas de crise, por exemplo, da expostas nas canções de protesto que cantam que “amanhã vai ser outro dia”. O tempo aí não é cronológico, o amanhã é o desejo de um outro mundo possível. Assim uma outra linguagem visa a construir uma outra realidade. Vejamos em Olarieta:
Nascemos sem saber falar, para nomear-nos e nomear o mundo, inevitavelmente, acabaremos valendo-nos das palavras e significados que nos serão cuidadosamente ensinados. Mas essas palavras nos ensinarão não só a dizer, mas também a ver, a pensar, a compreender as coisas e a compreender-nos de um modo particular. Essas palavras, e o modo de relacioná-las que temos aprendido, ao mesmo tempo em que apresentam um mundo, marcam um limite. Aprendemos que cada coisa tem um nome, inclusive nós mesmos. Aprendemos a nomearmos de um jeito determinado, aprendemos a dizer quem somos e como somos.
Aprendemos a ver o mundo a partir do que esses nomes nos permitem distinguir e temos dificuldades para ver aquilo que as palavras do nosso dicionário não mencionam. As palavras, ao mesmo tempo em que apresentam, ocultam. Não porque sejam mentirosas, mas porque definem contornos, agrupam coisas e ideias, ordenam e constroem um mundo que para nós se apresenta como “o mundo”.
Assim, vai se tecendo uma complexa trama de sentido que abre e delimita desde nossas experiências mais simples até as mais complexas.
Quando, com o passar do tempo e o trabalho da educação, uma criança consegue dominar com propriedade o código da sua língua e, junto com ela, o mundo simbólico da sua cultura, consideramos que ela já entende, que pode ser dona de seus atos e a declaramos adulta. Apropriar-se de uma linguagem adulta, significa apropriar-se de uma lógica, de uma forma de pensar e de se relacionar com o mundo.
Junto com as palavras aprendemos que uma coisa não pode ser ela e outra ao mesmo tempo. A partir da linguagem estabelecemos divisões claras que nos permitem agir, mas acabamos achando que essas divisões provêm do mundo, que nós simplesmente representamos essa ordem da melhor forma possível.
Ou seja, o discurso formal, narrativo e dissertativo estabiliza o mundo. A linguagem busca a estabilidade contra o caos, a padronização, a gramática. A poesia é uma grande transgressora. Não é à toa que malditos como Baudalaire e Mallarme, e subversivos como Neruda, Brecht e Maiakovsky tenham escolhido a poesia. A licença poética por vezes se transforma mesmo em licenciosidade, as regras da poesia, suas formas, são constantemente mutáveis, transgredidas e sua linguagem metafórica, visa sempre o sentido oculto e profundo da realidade, na verdade, é como se fosse o espelho invertido da realidade. A transgressão dos sentidos existente no livro das perguntas existe na forma de vários poemas de Neruda, no panteísmo de seus cenários e na angústia de seus amores. A poesia em si já não se considera por vezes uma infantilidade? Num mundo em que todos correm para se verem valorizados em valores capitalistas, qual o espaço para um menestrel? Assim, a linguagem poética dita infantil não é da infância propriamente dita, mas da infância reconstituída e reconstituinte de sentidos. Aprender a falar, aprender gramática, também é aprender a se conformar com o mundo, classificá-lo, dividi-lo, estabilizá-lo. Vejamos em Olarieta:13
Quando o mecanismo parece estar lubrificado, quando depois de passar por um longo processo conseguimos dominar nossa língua e nos tornamos experientes no exercício de codificar e decodificar o mundo que nos rodeia, de demarcar com nossas palavras suas seguras fronteiras, chegam aqueles que não sabem ainda falar.
Eles desconhecem nossa língua e precisam aprendê-la. Aprende-se a falar falando.
E é nesse jogo com essa linguagem que se lhes apresenta como totalmente nova que as crianças, essas recém-chegadas, forçam as palavras a inaugurar sentidos tão novos quanto elas. Estão também aqueles que, apesar de sua idade avultada, nunca aprenderam a falar e que, com um simples arredondamento dos metros, são capazes de traspassar as fronteiras estabelecidas e, subitamente, nos apresentar com a força de uma evidência a intensa intimidade que vincula o sol e as laranjas.
Dissemos que as palavras são muito mais que fonemas e grafemas que se combinam. Elas tecem sentidos, os sentidos com os quais lemos o mundo e a partir dos quais agimos nele. Então, quando alguém brinca com as palavras e as força a dizer coisas novas, está brincando com os sentidos instalados do mundo, está criando novos sentidos para compreender esse mundo, ou melhor, está criando novos mundos.
Podemos ver assim como a infância, como colocávamos no início, tem a ver com uma desestabilização, com um desarrumar o que estava ordenado e fixado, com um entrar nessa dimensão inaugural do tempo e da linguagem.

A poesia então reinaugura o tempo de viver, o tempo não é mais cronológico, mas disperso, infinito, não no sentido de uma vida eterna, mas de sua fluidez e vivência. Por isto os poetas são perigosos e banidos da República de Platão. Sua exigência que o da busca de outros sentidos, de polissemias é capaz de colocar em xeque qualquer mecanismo social “perfeito”. Mesmo a utopia, quando buscada, em autores como Neruda e Brecht, deixa um espaço de escape, porque a poesia não existe sem uma certa ironia, um certo ar de mofa ao poder. Funciona muito bem na crítica e na ironia, e mal na apologia, exatamente como o sonho é catarse e absurdo e não se enquadra nas regras funcionais sociais, antes é seu escape. Assim a poesia é retorno e sonho, fabricação permanente de sentido humano contra ordens mecanicistas, uma desastabilização da engrenagem de ordens e obrigações. Assim, segue Olarieta14
Depois de colocar as crianças do “humor infantil” ao lado do sol e as laranjas de Neruda, inevitavelmente aparecem as palavras de Rilke: “Arte é infância. Arte significa não saber que o mundo já existe, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto.”
Essa possibilidade de inaugurar mundos que Rilke atribui ao trabalho da arte é o que estamos chamando aqui de infância.Uma infância que nos desafia e que obriga a repensar o sentido que pode ter a educação, que habitualmente é entendida como um trabalho de acompanhar a criança no seu trânsito para a adultez. A educação costuma ser um trabalho de construção, de estabilização de sentidos que vão fazendo que crianças e adultos esqueçam que nada já é, que nada está pronto, que o mundo é múltiplo e que não há mais que possibilidades.

Assim, o livro das perguntas de Neruda se insere neste rol de literaturas que dissolvem a realidade, como as Histórias de Cronópios e Famas, de Cortázar, mas que na verdade, são acido diluentes e críticos da falsa seriedade de um mundo que vive através de compreensões apreendidas e da multidimensionalidade. Um livro dos últimos da vida de Neruda, de um poeta maduro, velho, que volta à linguagem da infância para ter uma outra dimensão e poder cochichar segredos de noite a nossso ouvidos, nos fazer perguntar pelo que realmente vale viver.

CONCLUSÃO

Nesta pequena resenha não nos propusemos a fazer uma retrospectiva autobiográfica da infância de Neruda, mas sim, a partir da forma como ele mesmo reconta a sua infância ir buscar as figuras poéticas que ficarão marcadas em sua poesia. Usando os livros autobiográficos: Confieso que he vivido e Para nascer nasci, a partir de seus próprios relatos, recuperamos as figuras que ele diz tomar da sua infância. O bosque e a mata chilena andina, a vida simples do povo proletário e semiproletário, uma interpretação mística, mítica e panteística da natureza, a adoração e o espanto diante da figura e da beleza feminina, o espanto e a adoração do mar. Por fim, o retorno à uma linguagem infantil em O livro das perguntas, deixam pistas de que Neruda é um poeta que valoriza sobremaneira os traços biográficos e estilísticos herdados da infância, ainda que toda a experiência de vida que ele tem, diplomática, a guerra, o exílio, a militância no Partido Comunista Chileno, sejam elementos constitutivos da sua poesia. Todavia, mesmo no Neruda da maturidade, como em o Canto Geral, quando ele escreve Alturas de Machu Pichu, há o retorno do menino maravilhado nos passeios de locomotiva por Temuco.
É sempre um maravilhamento, uma descoberta, uma porta aberta ao absurdo, ao estupor, ao novo, que faz com que sua poesia tenha sempre este gosto de bosque andino. Estará certo Rilke em dizer que Arte é infãncia, um eterno reconstituir-se, um eterno múltiplo? Não sabemos, ou se sabemos, sabemos ao lado de outras conclusões, a infância é uma polissemia, é a infância, mas é um outro, uma figuração da infância, uma farsa, um teatro reconstituinte do que ela foi realmente, no qual a criação literária recompõe as lacunas da memória.

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1Neruda, Pablo, 2005, p 13
2Neruda, Pablo; 2005, p. 14
3Neruda, Pablo; 2003, p. 40
4Neruda, Pablo; 1978, p. 8
5Neruda, Pablo, 1989
6Neruda, Pablo, 2005, p. 23
7Neruda, Pablo, 2005, p. 32
8Neruda, Pablo, 2005, p. 30
9OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013
10OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013
11OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013
12OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013
13OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013

14OLARIETA, Beatriz Fabiana, 2013

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