sábado, 18 de junho de 2011

A cidade vista do Alto

A Cidade Vista do Alto

Do alto do Morro do Alemão veem-se as luzes
Do aeroporto Internacional do Galeão.
O sonho do pobre parte com os aviões,
Por terras diferentes,
Onde a alegria não seja efêmera
E o sacrifício a regra.

A pedra nua, escavada, desmatada.
Pedra perfurada, sangrada.
A casa que se erige altiva,
Por cima do mundo.
Pedra conspurcada.
Fezes que escorrem
Pela cara da pedra,
Morro abaixo.
O cheiro que sobe,
Inunda a narina,
Fere a dignidade.

O trabalho,
Na segunda,
No asfalto,
Na mansão,
No restaurante,
Desinfetante,
Banheiro limpo,
Esforço do pobre.
Ar condicionado,
Relógio de ponto,
Seis horas,
Pernas cansadas,
Com varizes,
Voltam a realidade de cubículos
Sem espaço para o sol ou para a lua.

A violenta insatisfação
De ser sempre o Lázaro
Da parábola de Cristo.
Comendo as sobras à beira da mesa
De plantar o pão
E nunca ser recompensado.

Quando o morro desce para o asfalto
É vigiado na porta das lojas,
É barrado nas portas de luxo,
É esquecido nas filas dos hospitais,
Só encontra abertas as portas da igreja e da Delegacia.

A miséria precipita-se sobre a cidade
Como uma obra de arte apocalíptica.
Rocinha servindo São Conrado,
Tabajaras vigiando Copacabana.

Exército de flanelinhas,
Matilhas de menores,
Sorriso entre debochado e cínico,
Transfigurado pela cola de sapateiro e pelo crack
Pequenos Cristos em eterna comiseração

O olhar infantil, em ânsia infinda,
Se pergunta:
Por que deve um menino
Viver pior que um cão,
De esmolas, no roubo, na prostituição?

Nas lojas de artigos importados
Deseja o menino -
Ver um aquecedor elétrico de corações,
Um abridor de olhos para o mundo.
E possamos então ver que não é poética
É desumana a pobreza!
Um homem com fome,
Trôpego de cachaça no caminho,
Ou uma criança disputar com os ratos
Os restos do restaurante de luxo.
Retratos da miséria material do povo
E da miséria espiritual dos garantidos do sistema.

Quem consegue ver,
Indiferente,
A fome na face do semelhante,
Não merece ser chamado de homem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Balbúrdia das letras: A caverna

Balbúrdia das letras: A caverna: "A Caverna Desde que foi decretado pelo Estado oficial que a natureza era uma inimiga a ser desbravada, conquistada e ferida, os..."

A caverna

A Caverna

Desde que foi decretado pelo Estado oficial que a natureza era uma inimiga a ser desbravada, conquistada e ferida, os homens se recolheram a uma imensa caverna. Todos tinham, em seus lares, uma grande tela chamada de tele-inversão, onde podiam ver o mundo. Tudo era fabricado, os cheiros, os sons, os gostos, os ídolos, as práticas, os carros, muito carros, barulhentos, fumegantes, algumas pessoas tinham vários, era o símbolo do sexo e do poder. E celulares, gritantes, estridentes, desnecessários, as pessoas andavam com os celulares todo o dia, e falavam neles, falavam muito, mas muito mais do que falavam ao vivo, olhando nos olhos, que agora eram todos azuis, graças as diversas lentes que escondiam as descendências sempre mestiças renegadas, desapareciam nos olhos.
Era um mundo novo, da imensa democracia “universal”. Uma democracia onde o grande poder era o de consumir, havia eleições periódicas, onde, com muito dinheiro o povo miúdo e pobre escolhia o ricaço que lhe daria a corda com que se enforcar.
Nesta sociedade nascera um menino, de nome Demócrito. Ele recebera seu nome do filósofo grego. Seu pai fora expulso da caverna há dezenas de anos atrás e acabou por morrer, feliz, apesar de estar longe da família, no exílio, pois fora da caverna era a liberdade. Isto ele escrevera sempre ao filho, embora pouquíssimas cartas houvessem podido chegar.
Os amigos de Demócrito ridicularizavam-no. Não havia realidade fora da caverna, o mundo era plano e fora dele era só abismo, tristeza, pobreza. Não havia supermercados, nem shopping centers, nem celulares, nem computadores, era o abismo o infindável vazio. Demócrito não acreditava. Ele cria que fora daquela caverna insuportável, onde os homens eram classificados de acordo com o valor depositado na conta corrente, havia um mundo. Redondo, com cheiro de plantas e frutas. Com selvas e rios, com outras cores, que não fossem estas da tele-inversão.
Estas eram idéias perigosas, só os selvagens, chamados de índios e os comuneros criam nisto, mais ninguém. Os selvagens viviam à margem da caverna, comendo com as mãos, num estágio primitivo e aterrador, era impossível viver com eles. Los comuneros eram uns sanguinários, desacreditavam em tudo que era compulsivo, no casamento compulsivo, no trabalho compulsivo. Ousavam discordar da tele-inversão e propunham outra realidade, onde as pessoas valeriam pelo que eram. Mas, o que é uma pessoa, senão seus carros, seu cartão de crédito, sua tele-inversão da realidade, senão seus celulares, senão sua conta-bancária? O que? Estas idéias perigosas acabariam com a tranquilidade e a beleza da sociedade da caverna. Sentir o vento? O vento tinha bactérias e micróbios, havia um super ar-condicionado gigante garantindo o sustento de toda a caverna, ar esterilizado, puro. Para que sentir brisas, ventos e outros inconvenientes da natureza se este gigante do mundo moderno podia nos tirar do estágio de selvageria e barbárie?
A música era tecno, melhor, tecno-brega. Roupas grudadas de plástico, de couro, de outros tipos. Era industrial como esta sociedade, aliás, até o amor era industrial, esterilizado, pasteurizado, enlatado, louro e artificial como tudo. Louras rebolativas cantavam as partes do corpo feminino como postas de carne expostas em açougues. Aliás, depois de celulares e carros, nada como possuir uma loura. Era uma demonstração de status na caverna, ainda que a loura fosse falsificada (90% dos casos). Descendentes de índios, negros e etc, não eram muito bem-vistos nesta sociedade tecno-brega. Aí era um festival de índias louras, de negras louras, de morenas louras, de preconceitos politicamente corretos, mudos e eternizados. Também havia os garotinhos de roupas grudadas e partes pudicas dependuradas nas novas revistas de venda de sexo, agora rebatizadas de “magazines de nu artístico’.
As crianças eram super-gordas (as que não eram pobres e famintas) e comiam seus venenos no mac-caverna do momento, o big-caverna, o big-bobagem, o big, pig, chicken ou qualquer coisa em inglês, que era uma mostra de cultura. Afinal, na caverna, quem entendesse pouco ou nada de inglês era considerado pouco ou mais do que um selvagem, embora pouquíssimos fossem descendentes de anglo-saxões.
As pessoas não sofriam mais, porque o sofrimento era algo “out” não “cult”. A tele-inversão pensava por todos. Não havia excluídos, apenas os “colaterais”. Uma criança comendo lixo, era um colateral, uma necessidade da opulência, no máximo um azarado, algo extremamente suportável, na verdade, com o tempo, ninguém mais via as crianças comendo lixos. Todas as crianças, dizia a tele-inversão, já tinham ido na nova Disney-caverna, que era a maior demonstração de carinho e felicidade que os pais podiam dar a seus filhos.
Não havia guerras, apenas patrulhamentos da nova polícia internacional da Grande Águia, que dominava tudo e era dona da verdade, afinal dominava todas as mais importantes tele-inversões do mundo. Era a democracia da verdade única. Rapazes e moças bem bonitos e arrumados, no jornal da noite, davam a verdade do dia-a-dia. Bombas caindo em algum lugar da caverna eram danos colaterais, protótipos inteligentes de alguma guerra clínica, para o que a tele-inversão fazia a lobotomia da sensibilidade de todos, aliás, sensibilidade era algo profundamente “out”, fora de moda, assim como a solidariedade. O lema era cada um por si, e Deus contra todos.
Demócrito não acreditava nisto. Era sensível, era solidário. Não tolerava sequer mais a Ditadura da Imagem Única da tele-inversão, e queria sair portão afora, para ver o mundo, coisa que não era permitida.
Um dia conseguiu fugir. Seus olhos, acostumados à iluminação artificial, ardiam, seus pulmões se encheram de ar puro, cheios de odores de flores, nos ouvidos, zumbidos de abelhas, pios de passarinhos, sons de um rio próximo. Ele não acreditava, era impossível. Um rio!!!! Na caverna só havia valões, que foram cobertos por serem sujos, mal-fedidos e cheios de sujeira e esgotos. Era uma outra vida.
Tinha medo também, era jovem e ouvira falar que os comuneros matavam por puro prazer e obrigavam as pessoas que saiam da caverna, que saiam do sistema a orgias. O medo de encontrá-los era grande, pois eles dominavam algumas áreas do mundo fora da caverna, as que não eram super-patrulhadas pelos mariners da Super-Águia. Ela não cria nos seus próprios olhos. Era isto que a ditadura da imagem única queria negar? Frescor, luz, sol, natureza, a própria essência da humanidade.
Andou e sentiu fome. Pegou mangas, era a primeira vez que as comia assim, direto da árvore. Acabou por encontrar uma pequena tribo de índios. Tremeu, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi: selvagem, antropófagos. Mas a curiosidade foi maior. Acabou por se chegar, e foi bem-recebido. Eles falavam outro idioma, mas, havia alguns na comunidade capazes de falar com ele, pois tinham tido contato com o mundo da caverna.
Demócrito viveu meses ali. Descobriu um novo sentido. Uma solidariedade diferente. Eram estes os selvagens? Não havia ricos, e nem pobres, nem hipocondríacos, nem alcoólatras, nem deprimidos, nem órfãos ou viúvas desamparadas, nem existiam os “não incluídos”. Havia um sentido coletivo novo, e pela primeira vez na vida, ele sentiu na prática que a felicidade é um bem comum, que os homens são partes de uma mesma essência. Perdeu o tênis da moda, e nem se importou. Seus pés se afundaram no lodo dos rios e redescobriu nadar, pescar, dançar e até amar. Não que ele fosse virgem antes de chegar ali, mas descobriu um sexo sem culpas e sem medo, de entrega e sem submissão, uma visão natural e diferente da sexualidade, onde não havia compulsão e nem se usava a relação como um jogo de poder. Estava encantado e tinha vontade de viver ali para sempre.
Aprendeu deuses outros, que eram pássaros, que eram árvores, que eram cantores, sol e lua, mata e rio. E descobriu que a capivara era sua irmã, que a ema era sua irmã, que o veado era seu irmão. E não achou que estes deuses da mata fossem demônios, ao contrário, viu nestes deuses tanta verdade quanto em Cristo e sua pregação de amor pelo próximo.
Com o tempo sentiu a necessidade de sair dali e retornar à caverna. Quando pensava nisto chegou um comunero para se esconder na aldeia. Foi bem aceito, já estivera ali antes, e havia ajudado os índios a organizar sua resistência, pois não apenas uma vez havia sido arrasada a aldeia, com dezenas de mortos a sujar a história da moderna civilização da super-caverna-globalizada-da-imagem-única.
Teve medo, a idéia que tinha do comunero era péssima. Um dia foi suficiente para aproximá-lo daquele militante comunero. Soube de verdades então que jamais pensara antes. De como a sociedade da caverna poderia ser outra, livre, amante da natureza, sem o trabalho compulsivo, com tempo de sobrar para viver, curtir a natureza, dançar, cantar, sentir o prazer de viver e estar aqui, e a necessidade dos que sabiam desta possibilidade era a de espalhar isto como um evangelho.
Demócrito ficou mais um mês na tribo, aprendeu muitas coisas, recebeu uns livros do velho militante e os devorou, acreditava estar pronto para retornar à caverna e cumprir sua promessa de abrir os olhos de quem pudesse.
Para voltar a caverna contou uma história que se perdera. Foi recebido como um herói que sobrevivera à sanha de ficar seis meses em poder de selvagens. Na primeira entrevista dada em rede internacional à tele-inversão ele começou a falar a verdade. Da necessidade da natureza, do homem se reencontrar com sua essência, de descobrir sua alienação em relação a si mesmo, aos outros semelhantes, de se libertar, não como um processo de uma pretensa liberdade de se fazer coisas inúteis, mas como uma descoberta das amarras que nos prendem em nosso caminho rumo a uma realidade diferente e digna, e da superação destas cadeias. Nunca mais foi chamado à tele-inversão. No dia seguinte todos os principais jornais do grande mundo da super-caverna tinham editoriais feitos pelo Partido da Imagem Única que ridicularizava e depreciava a fala deste dinossauro, que pretendia que a caverna regredisse e voltasse a ser uma sociedade pouco melhor que de índios pré-civilizados. Como abrir mão da miséria na abundância, do homem ser lobo do próprio homem, da competição com cada um apertando o pescoço do próximo, vendendo a mãe e matando o pai por um degrau na escada dos desesperados? Era impossível, outra sociedade que não fosse esta, era natural, era só ver na natureza, o leão devorando a gazela, esta era a lógica, poucos com muito e muitos com nada, a desigualdade se justificava. Não houve, é claro, nunca direito de resposta.
Demócrito publicou alguns panfletos, cerca de 400, o jornal de menor circulação, da Ditadura da Imagem Única teve uma tiragem de 500 mil. Passou a ser o inimigo n.º 1 da caverna. Falava dos pobres e dos lixões, falava da mentira e do monopólio da informação, falava de utopia e beleza. Um dia, como um mártir louco, pregava ao sol escutado por muitos jovens que começavam a abrir os olhos com sua semente. O tiro partiu, certeiro, de um para-militar desconhecido, na cabeça, para parar um cérebro que ousara discordar. Ele caiu, morto...
No dia seguinte, apareceu num muro (a forma de propaganda dos dissidentes da verdade única)
Demócrito vive...
Que nos persigam...
Que nos prendam...
Que nos matem...
Ainda assim voltaremos, e logo seremos milhões!!!!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Balbúrdia das letras: De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo

Balbúrdia das letras: De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo: "De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo em 5 de maio de 2011. Muita gente não entende como o Flamengo, que ficou 17 anos sem ganhar um..."

De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo

De Norte a Sul uma mesma religião, Flamengo em 5 de maio de 2011.

Muita gente não entende como o Flamengo, que ficou 17 anos sem ganhar um título brasileiro, saiu de 40% da torcida carioca para 55% e fidelizou 35 milhões de torcedores no Brasil.
Bem, para explicar isto, há que começar de um primeiro fato. O Brasil é um país continente e o Rio de Janeiro é a capital cultural do Brasil, até hoje (e falo isto sem nenhuma sombra de bairrismo). Todos os grandes músicos brasileiros, incluindo os paulistas, para fazer efetivamente sucesso nacional tiveram que fazer carreira no Rio. Caetano, Gil, Dorival Caimmy, Ary Barroso, João Gilberto, Elis Regina. Não importa a naturalidade, tiveram que passar no duro teste do Rio de Janeiro.
Então, ao contrário dos comentaristas babacas da televisão que dizem que os campeonatos estaduais tem que acabar, porque a Espanha, a França e a Inglaterra não tem campeonatos estaduais, lembro sempre quantas Espanhas podem caber no Brasil.
Não dá para fazer campeonato regional na Espanha e não dá para resumir o futebol brasileiro a 20 clubes. Privilegiar só o brasileiro é levar á extinção o América, a Ponte Preta, o CSA, o Guarani, o Moto Clube, alguns destes clubes com milhões de torcedores.
Se o eixo Rio-São Paulo sobrevive só com a série A do brasileiro, e mesmo assim, só os clubes grandes, o resto do Brasil vai ter clubes fechando as portas.
Assim, o campeonato estadual tem sempre um grande gosto de ser conquistado e permanecerá eternamente, pela dimensão continental do nosso país, mesmo que esvaziado se comparado ao que foi há 20 anos. Mas, extinto, é impossível. E esta rivalidade estadual, há muito tempo, transbordou as fronteiras do estado Fluminense.
Tudo graças ao Rio Capital da República e a tronitoante voz de Orlando Silva, Francisco Alves, as cantoríssimas do rádio, Isaura Garcia, Dalva de Oliveira, Marlene e todos os grandes crooners e cantoras da rádio Nacional, que levaram não só a  música carioca Brasil à fora, mas também a paixão aos clubes do Rio de Janeiro.
Assim, os times do Rio de Janeiro levaram sua rivalidade regional ao Espírito Santo, à Santa Catarina, a todo o interior do nordeste e mesmo muitas capitais destes estados, à toda região norte e Centro Oeste.
Corta, fim da era do Rádio, porque então só o Flamengo se tornou o grande time regional?
A explicação é simples, AZ-DZ. As eras flamenguistícas medem-se por antes de Zico, depois de Zico. A popularidade no Rio de Janeiro do Flamengo, deveu-se, desde o princípio, ao fato de o Flamengo ser o Clube popular por excelência. Contraditando algumas teses, todos sabemos que o Fluminense sempre foi o clube da elite; o Botafogo, mesmo com o Garrincha, nunca conseguiu ser um clube popular, por último, o Vasco sempre foi visto com o clube do Colonizador.
Tudo bem, o Vasco e o Bangu foram os primeiros times no Rio de Janeiro (no Brasil não há comprovação de que foram eles) a admitir negros NO ELENCO.
E porque coloco NO ELENCO em maiúsculas. Porque admitir pé-de-obra negro num clube não é democratizá-lo. O futebol era um esporte que começou como sendo de elite e logo se popularizou. O Vasco era e é um clube aristocrático, num bairro que era da realeza e da corte, na época, São Cristóvão.
Os jogadores do Vasco na década de 20 eram negros, não os sócios. E nisto há uma clara divisão de classe, burguesia proletariado, agora proletários da bola.
Todos os clubes (talvez com exceção do Bangu, que era um clube da Fábrica Bangu) eram de elite, então, os jogadores sócios logicamente eram brancos.
No Vasco a dicotomia se manteve, sócios brancos, jogadores pagos negros.
Não houve uma democratização interna do clube que até hoje não tem voto democrático e elege um conselho de notáveis que junto com um conselho não-eleito de beneméritos que elege seu presidente. Qualquer comparação com a organização das Vilas impostas por Portugal e sua eleição só de homens de bem (ou homens de bens), não é mera coincidência.
Por esta razão (e não por racismo) a cidade toda torceu pelo Flamengo num Flamengo x Vasco na década de 20, quando o Flamengo representava então o Brasil diante de Portugal. Daí em diante, a paixão pelo clube só cresceu.
Na era Zico, uma era de televisão, o clube mais popular do Rio e do Brasil se tornou o único clube verdadeiramente nacional. E não venham falar de bairrismo. Todo país tem um clube nacional. Na Itália é o Juventus, na Argentina, o Boca, na Espanha, o Real, na Inglaterra, o Manchester. Um clube, que por alguma razão ganha uma identificação com seu povo e se torna símbolo que transcende suas fronteiras. O Flamengo que já tinha plantado raízes na era de ouro do rádio, vai se consolidar na época da consolidação da televisão.
Além dos vários títulos regionais, ninguém jogou futebol mais bonito, ninguém tratou melhor a bola nas décadas de 70 e 80 do que o Flamengo, no Brasil e seu esquadrão se comparou nestas décadas a poucos times no mundo, talvez o Ajax que inspirou a Holanda de 74. Um clube vira um mito via Zico e consolida-se no Brasil, levando a rivalidade carioca além das suas fronteiras.
Sim, a rivalidade carioca, porque, quem vira Flamenguista, seja no Oiapoque ou no Chuí, vibra com todos os títulos, inclusive o carioca.
Encerrando o segundo capítulo.
Terceiro round, como pode um time que ficou 17 anos sem título nacional conseguir aumentar sua supremacia em torcida?
Explicação fácil, o Flamengo não parou de ganhar títulos e ninguém ganhou tantos títulos como o Flamengo num período tão pequeno. Nem mesmo o São Paulo. Talvez o São Paulo tenha títulos mais expressivos, mas não na mesma profusão. O São Paulo fracassou na maioria dos campeonatos regionais.
Time que fracassa nos títulos regionais não consegue consolidar hegemonia no seu próprio estado. E quando um time não consolida hegemonia no seu próprio estado, mesmo que aumente sua torcida fora do Estado, não consegue ameaçar a hegemonia dos outros. O Corinthians foi arquirrival do São Paulo regionalmente e conseguiu até um título fake mundial. Isto barrou as pretensões do São Paulo de alcançar o Flamengo, mas o sucesso do Sampa também diminui o crescimento do Corinthians, já no Rio e arredores.
O Flamengo, time de berço de cariocas, capixabas, cearenses, baianos fora da capital, potiguares, piauíenses, goianos, paraenses, amazonenses, fez a limpa
Vejamos uma cronologia desde o fim da década de 70.
78-79 - Tri Campeonato Carioca e recorde brasileiro de invencibilidade
80 - Campeão Brasileiro
81 - Carioca, Libertadores e Mundial. Pentacampeão da Taça Guanabara
82-82 - Tri Campeão Brasileiro
86 - Carioca
87 - Tetra-campeão Brasileiro
90 - Copa do Brasil
91 - Carioca
92 - Penta CampeãoBrasileiro
96 - Carioca invicto
99 - Carioca e Mercosul
200-2001 - Tricampeonato Carioca
2001 - Campeão dos Campeões
2004 - Carioca
2006 - Bi Campeão da Copa do Brasil
2006-2009 - Penta Tri carioca
2009 - Hexa Campeão Brasileiro
2011 - Campeão Carioca
Assim o Flamengo passa de 40% da população fluminense para 55% da população fluminense, isto num estado com 4 times grandes! O clube é um fenômeno que contrabalança o fator família (o mais importante na escolha do clube de coração) e que faz com que muitos pais não consigam fazer com que seus filhos torçam por outra equipe.
Como o Espírito Santo basicamente torce para times cariocas, o fenômeno é muito parecido, nas regiões norte e nordeste com predominância carioca, o resultado é ainda maior, simplesmente as outras equipes fluminenses praticamente desapareceram como times nacionais e o Flamengo é a segunda maior torcida do Ceará, a terceira maior da Bahia, a maior do Piauí e uma das maiores em todos os outros estados do nordeste, com exceção da Grande Recife.
Por isto somos uma nação.
De norte a sul, uma mesma religião, Flamengo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Balbúrdia das letras: Sai do Armário, Sossô

Balbúrdia das letras: Sai do Armário, Sossô: "Texto do Fulgêncio Seja mais feliz, Sossô, assuma seu lado gay Meu primo, gay assumido e feliz, Florêncio Pedra Lilás, me escreveu uma al..."

Sai do Armário, Sossô

Texto do Fulgêncio

Seja mais feliz, Sossô, assuma seu lado gay

Meu primo, gay assumido e feliz, Florêncio Pedra Lilás, me escreveu uma alegre carta sobre a polêmica que envolve o Bolsonaro. Além de ser um gay assumido e feliz, Florêncio é terapeuta reich-freudiano, e quer que toda a humanidade libere suas energias reprimidas. No caso de Bolsonaro, Fulgêncio defende o libera-geral, veja a carta:
"Querido Sossô, fiquei muito triste com suas atitudes francamente fascitóides. Francamente, Sossô, porque tanto ódio contra nós, Gays? Freud já explicava que certas pulsões que temos escondem nossos medos, no caso da homofobia, é famoso e conhecido que é um horror a assumir seu lado gay. Sossô, cá entre nós, libera geral! Sai do armário Sossô! Fiquei arrepiadíssimo ao ver sua barriga depilada no programa CQC. Diga para mim, toda aquela camaradagem, aquele abraço coletivo nas amigas de acampamento, tava rolando um clima, não?
E que história cafona é esta de ser contra esta promiscuidade de transar com negras? Você não foi criado no mesmo "ambiente" que a Preta Gil? Que pena, Sossô! Deve ser realmente muito triste conviver na infância com Caetano Veloso, Capinam, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, Milton Nascimento, Tom Jobim... Péssimas, péssimas companhias, não?
Sai deste armário, Sossô, queima este exemplar de Mi Kampf e saia cantarolando It's raining men nas nossa divertidas discotecas gays. Tanto preconceito e ódio contra os gays, Sossô, só pode ser por uma paixão não correspondida por um Sargento Negro que o trocou por alguém de mais baixa patente.
Depois de tanta bobagem, nunca mais vou te chamar de Bolsonaro, agora só vou te chamar pelo seu apelido mais íntimo das baladas não confessáveis, Sossô!"
Bem, eu continuo com muito ódio de toda a babaquice que o Bolsonaro fez, mas confesso que a alegria de meu primo gay me fez rir e meditar um pouco. Se boa parte dos idiotas homofóbicos se liberassem e se assumissem, garanto, a humanidade seria menos violenta e muito mais alegre, colorida e feliz!